segunda-feira, 30 de maio de 2011

Gestão passiva de investimentos

Burton G. Malkiel
European Financial Management. Volume 9. pp. 1-10. 2003

O artigo trata da gestão passiva de uma carteira de ações. O primeiro passo (não dado pelo autor) é definir o que vem a ser gestão passiva. Elton et. al (2004) (infelizmente, esse livro está esgotado na editora) definem a gestão ativa como aquela que incorpora expectativas sobre o retorno dos ativos enquanto que a gestão passiva, por exclusão, não o faz. Seria uma estratégia não especulativa, no sentido dado por Fridson (1993), especulação entendida como “subdiversificação com o objetivo de auferir retorno ajustado ao risco superior”. Operacionalmente, a gestão passiva leva à criação de uma carteira bem diversificada o que pode levar à indexação, que é a compra das ações que compõem um índice acionário, isso podendo ser feito investindo em um fundo de investimento referenciado em um índice (Ibovespa, por exemplo) ou em um ETF. Não necessariamente o investidor deve apenas comprar o Ibovespa (investindo em um fundo ou ETF). O investidor pode querer correr mais risco, ou pode querer receber mais dividendos ou pode ter alguma preferência desse gênero não refletida pelo Ibovespa, podendo complementar com compra de ações ou investindo em outros índices (os índices Small Cap e de Dividendos da BM&F Bovespa, por exemplo).

O argumento do autor em defesa da gestão passiva é construído em três etapas. A primeira é que os mercados são eficientes, de forma que os retornos anormais tendem a ser zero e, em sendo assim, não buscar retornos anormais seria a melhor estratégia. Anomalias à eficiência de mercado são muito estudadas, mas, como disse Fama (1998), excesso de reação a informações é tão frequente quanto falta de reação e muitas dessas anomalias são descobertas porque uma infinidade de testes são feitos. Ex-ante, não há oportunidades claras de arbitragem em um mercado eficiente.

Mesmo que existam anomalias e os mercados não sejam eficientes, a gestão passiva continuaria sendo atrativa porque pode haver elevados custos de transação para explorar essas ineficiências. Ainda, é inegável que a média dos retornos anormais é zero, com alguns conseguindo mais retorno do que a mera compensação pelo risco enquanto outros conseguem menos retorno. Na verdade, com custos de transação, a média dos retornos anormais é negativo. (Não confundir com a falsa ideia de que o mercado acionário é um jogo de soma zero). Sendo os mercados ineficientes, só valeria a pena a gestão ativa se você tiver certeza de estar do lado certo da distribuição de retornos anormais, o que não vai acontecer com a maioria das pessoas. (Esse é o argumento do autor. Não me parece que essa situação esteja muito distante da eficiência de mercado).

Como dito, diversos estudos analisam os retornos de ativos e encontram situações anômalas à eficiência de mercado. Os investidores agem de forma irracional e isso daria oportunidades para investidores racionais e profissionais lucrarem em cima desses desvios sistemáticos da racionalidade. Isso, porém, não ocorre. Segundo o autor, em 2001, mais de 50% dos fundos ativos tiveram desempenho inferior ao S&P 500 nas janelas de 1, 5 e 10 anos (nessa última, a porcentagem é de 71%). O retorno mediano dos fundos ativos é inferior ao retorno do S&P 500. Entre 1970 e 2001, 86 fundos tiveram desempenho inferior, 50 tiveram desempenho equivalente (entre -1% e +1% ao ano de desempenho ajustado pelo índice), 22 tiveram desempenho superior e 197 deixaram de existir. E não há muita persistência de retornos, com os melhores fundos em um período indo para a parte inferior da tabela no período seguinte e elevados retornos em um período não se traduzindo em maiores retornos no futuro. Resultados semelhantes são encontrados analisando o mercado europeu. Para uma melhor análise do desempenho dos fundos, ver aqui.

Malkiel escreveu em 2010 um artigo para o Wall Street Journal reafirmando o que havia escrito sete anos antes. A gestão passiva foi posta em xeque com a crise de 2008 e com retornos baixos do mercado americano nos últimos 10, 15 anos comprar e segurar as ações não parece muito atrativo. Porém, os argumentos em favor da gestão passiva não diz que isso fará com que o investidor ganhe, só que na maioria dos casos será melhor do que a gestão ativa. O erro no artigo de 2010 é a proposição da adoção da estratégia do custo médio, discutida aqui e aqui.

Retomando o comentário sobre como atrair novos investidores pessoa física para a bolsa, a gestão passiva, que seja através de um fundo de grande banco, potencialmente melhor com ETF ou fundos com menor taxa de administração, é um bom primeiro passo para todos os investidores. Se quiser, pode tentar superar o mercado através de alguma estratégia que julgue lucrativa, mas isso está longe de ser uma obrigação. A eficiência de mercado, se de fato existir, pode ser considerada uma externalidade positiva, com os investidores podendo se beneficiar (por meio da gestão passiva) dos esforços de outros participantes do mercado em busca de informações sobre os ativos sem ter que pagar por isso, nem pagando com perda de custo de oportunidade. Um conselho que julgo adequado é entrar no mercado para assumir mais risco em busca de maior retorno através da alocação de parte do capital em ações, gerenciar a carteira com mínimo custo, tempo e esforço (com gestão ativa) e dedicar seu dinheiro, tempo e esforço para trabalhos que julgue desempenhar bem.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Links (21-27/05)

Finanças
Why I.P.O.’s Get Underpriced

Diversificação, ETFs e perfil investidor

Economia
Dia da liberdade de impostos - 3ª edição

Despertando para a liberdade

Brasileiro trabalha até a próxima segunda só para pagar impostos

Leituras para futuros textos
Cash Holdings and Credit Risk

Abnormal Returns from the Common Stock Investments of the U.S. Senate

Abnormal Returns From the Common Stock Investments of Members of the U.S. House of Representatives

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Mercados Irracionais Eficientes

Les Gulko
Journal of Portfolio Management. Inverno, 2005

Há uma certa confusão de dois conceitos inter-relacionados, mas distintos, a racionalidade dos investidores e a hipótese de mercados eficientes (HME). Evidências de que investidores agem irracionalmente são tomadas como evidências de que mercados são ineficientes, mas o artigo mostra como um mercado povoado por investidores irracionais pode mesmo assim ser eficiente.

A análise empírica do autor toma como base as previsões de analistas para as taxas de juros de três meses e de trinta anos para daqui a seis meses, tendo como fonte pesquisa semestral do Wall Street Journal. A análise é feita por uma regressão simples:

r(t+1)= α.rt+β(ft-rt )+ϵ

Onde:
r(t+1) = Taxa daqui a seis meses
rt = Taxa atual
ft = Média das previsões
α e β são os coeficientes da regressão.

Se alfa for igual a 1 e o beta for maior do que zero, os analistas estão certos sobre a direção das taxas. Se o alfa for 1 e o beta zero, as previsões tem valor preditivo zero e a melhor previsão das taxas de juros futuras é a própria taxa atual. Se o alfa for 1 e o beta negativo, as previsões estão erradas.

O resultado para a previsão das taxas de três meses é um alfa próximo a 1 e beta indistinguível de zero (coeficiente positivo, mas estatisticamente insignificante), indicando que as previsões são tão boas quanto as taxas atuais para prever taxas futuras. Para taxas de 30 anos, o alfa é próximo de 1 e o beta negativo. Isso indica que o mercado de taxas de juros é eficiente na medida em que as taxas futuras são imprevisíveis e a melhor estimativa das taxas futuras é a taxa atual. Na média, o consenso dos analistas converge para as taxas atuais, mas há grande dispersão das previsões individuais. A distância média em relação às taxas atuais é de -0,0015%, mas o desvio-padrão dessa distância é de 0,565%.

Logo, taxas são imprevisíveis e as previsões se aproximam do melhor estimador, os preços/taxas atuais, consistente com a HME. O último ponto, elevados desvios em relação ao consenso e às taxas atuais, indicam uma certa irracionalidade na medida em que certos participantes ignoram uma informação pública útil (as taxas de juros vigentes), fazem previsões diferentes dessa estimativa superior e tomam decisões irracionais (talvez levadas por excesso de otimismo). Isso configura uma situação de mercado eficiente e irracional, ou ainda, preços de ativos não precisam de investidores racionais para serem eficientes.

Como pode ser assim? O autor argumenta que a “perfeição” de um sistema independe da perfeição de seus componentes. Falha de um componente pode ser compensada por outro e o que torna o sistema eficiente são as várias interações entre suas partes. Um mercado acionário eficiente, por esse ponto de vista, seria “produto da ação coordenada de vários agentes imperfeitos”. Seguindo Hayek (1945), o autor argumenta que os investidores comunicam suas decisões, opiniões e preferências pelo sistema de preços. Analogamente, os investidores observam preços e tomam decisões e formam opiniões e preferências observando os preços. Investidores trocam informações indiretamente através das transações e disseminam as informações para o mercado.

O autor relaciona ainda essa situação com o Efeito Édipo (não confundir com complexo de Édipo). Embora esse termo se refira mais a profecias auto realizáveis, o sentido empregado é o dos participantes observarem um fato (as taxas de juros) e mudarem suas ações e opiniões após isso. Unindo isso com profecia auto realizável, os investidores como um todo se desviam das taxas de juros aleatoriamente só para (pela minha interpretação) caírem de volta, na média, nas taxas de juros.

Para testar esses resultados, o autor constrói um modelo de máxima verossimilhança. Não entendi completamente esse modelo, mas parte de uma premissa bem diferente de outros modelos, assumindo que todos os investidores sejam irracionais. A distribuição das previsões pelo modelo é qualitativamente semelhante à distribuição das previsões da análise empírica. A incerteza é maximizada e a divisão de desvios para mais ou para menos das taxas atuais é de 50/50, o que é coerente com a HME. Mesmo com todos investidores irracionais, há, ao menos teoricamente, eficiência de preços.

As implicações práticas segundo o autor são a de que a gestão passiva é desejável e que estratégias baseadas em explorar irracionalidade dos investidores podem não ser rentáveis (havendo alguma evidência de que assim seja).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Links (14-20/05)

Finanças
Is Insider Trading Really a Crime? – Na parte onde o autor pergunta quem é a vítima, quem vende as ações para o insider a $ 10 pode até vender a um preço superior se não houvesse o insider (que seria de $ 9,75 no exemplo), mas seria melhor ainda se a informação fosse pública e ele vendesse a $ 15.



Ações do LinkedIn sobem 109% na estreia – Não é uma afirmação muito simpática aos profetas de plantão, mas ainda é cedo para afirmar categoricamente que se trata de um “revival” da bolha ponto com do final do século passado. A IPO do Linkedin lembra mais a do Netscape, realizada em 1995, que teve, coincidentemente, uma variação no primeiro dia muito próxima à do Linkedin (108,04% contra 109,44% da rede social). Ou seja, talvez venha a ser um prenúncio como o foi o Netscape. Bolha 2.0. teremos quando, a exemplo da 1.0., empresas em estágios muito mais iniciais do que o Linkedin (que já tem um modelo de negócios que funciona, gera receita e lucro) começarem a vir a mercado valendo bilhões. E a variação de mais de 100% não é tão anormal no mercado americano. Segundo Jay Ritter, no pós bolha ponto com três ofertas (excluindo ADRs) tiveram variações superiores a 100%. Em 1999 e 2000 (anos da bolha), foram nada mais do que 193 ofertas que ao menos dobraram de valor. Isso, porém, não enriqueceu muitos investidores, especialmente os pessoas físicas. Conforme relato da reportagem, um gestor de hedge fund recebeu 500 ações do Linkedin que vendeu a US$ 80, conseguindo lucro de US$ 17.500,00 (o que, para um grande fundo, é a mesma coisa que nada). Pessoas físicas não devem ter recebido coisa alguma a não ser que fossem clientes muito especiais das corretoras. No Brasil, há porcentual mínimo para investidores de varejo (no Brasil, costuma ser de 10% no mínimo) e a distribuição para os investidores institucionais segue a Instrução CVM 400:

“O líder da distribuição, com expressa anuência da ofertante, organizará plano de distribuição, que poderá levar em conta suas relações com clientes e outras considerações de natureza comercial ou estratégica, do líder e do ofertante, de sorte que as Instituições Intermediárias deverão assegurar:

I - que o tratamento aos investidores seja justo e equitativo;

II - a adequação do investimento ao perfil de risco de seus respectivos clientes; e

III - que os representantes de venda das instituições participantes do consórcio de distribuição recebam previamente exemplar do prospecto para leitura obrigatória e que suas dúvidas possam ser esclarecidas por pessoa designada pela instituição líder da distribuição.”

Nos Estados Unidos, me parece que toda a distribuição é feita a critério dos coordenadores, como ocorre com os investidores institucionais no Brasil. Mas mesmo que a oferta fosse à brasileira para os investidores de varejo, com um volume aproximado de US$ 352,8 milhões (7,84 milhões de ações a US$ 45), mais ou menos R$ 571 milhões, o que está próximo abaixo da média de volume da oferta das IPOs brasileiras (mais ou menos R$ 800 milhões) e com uma demanda tal que um hedge fund recebeu 500 ações, a quantidade de ações que a pessoa receberia após o rateio seria bastante desanimadora. Talvez volte a tratar do assunto na próxima semana.

Economia



Impostos

Nos próximos dias, teremos dois eventos relativos à tributação no Brasil. O primeiro será o Jogo Justo Fase II no dia 21 que contará com uma série de palestras sobre o mercado de jogos eletrônicos no Brasil e com a comercialização de alguns jogos com o preço sendo igual ao imposto pago normalmente (R$ 99,90). O segundo evento é o Dia da Liberdade de Impostos no dia 25 que já vem sendo realizado anualmente há algum tempo e que consiste na venda de gasolina ao preço livre de impostos. O Dia da Liberdade de Impostos não é algo específico de tributos de gasolina, mas um protesto contra a alta carga no Brasil e, para um dos seus organizadores (Instituto Ludwig Von Mises Brasil), algo contra todo e qualquer imposto. O Jogo Justo é algo específico para jogos eletrônicos, assim como outra iniciativa, o Preço justo Já, é contra impostos sobre eletrônicos. O que esses dois últimos tem em comum é não tratar do outro lado da moeda, a redução de gastos. Sem isso, a tributação só muda de alvo.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O que se vê e o que não se vê

(Ce qu'on voit et ce qu'on ne voit pas)
Frédéric Bastiat

Escrito há mais de 150 anos atrás, esse curto ensaio trata de falácias econômicas comuns em seu tempo e que, apesar de passado tanto tempo, continuam bastante populares nos dias de hoje. O mote do ensaio é seu título, mostrando que efeitos claros de uma determinada prática ou política que trazem benefícios econômicos a uma parte (aquilo que se vê) escondem malefícios para alguma outra pessoa ou custos ocultos (aquilo que não se vê). Há efeitos visíveis e aquele que devem ser previstos e geralmente as consequências imediatas são favoráveis enquanto que as consequências futuras são negativas (alguns dirão que tudo bem, já que estaremos mortos no longo prazo).

Nos próximos parágrafos, o resumo de cada seção do ensaio.

Janela quebrada. Quebrar uma janela é algo negativo, mas veja pelo lado bom, o vidraceiro ganhará um negócio e o que seria dos vidraceiros se janelas nunca fossem quebradas? O que se vê é o vidraceiro ganhando um negócio. O que não se vê é outra pessoa, um livreiro, por exemplo, perdendo já que o dinheiro que iria para a compra de um livro vai para o conserto da janela. O dono da janela sai prejudicado, já que, sem o acidente, ele teria uma janela e um livro a mais, enquanto que com o acidente ele continua na mesma situação, com uma janela e nenhum livro adicional. Destruição não traz prosperidade, apenas destrói riqueza; de outra forma, as economias cresceriam absurdamente se saíssemos quebrando janelas.

Desmobilização de tropas: O que aconteceria se milhares de soldados fosse dispensados assim que não forem mais necessários, quando a guerra acaba, por exemplo. O efeito imediato visível seria milhares de desempregados jogados no mercado de trabalho e perdas para a indústria, já que o exército tem seus gastos e a renda dos soldados é utilizada na compra de algum produto. O que não se vê é que o dinheiro que vai para o exército e para os soldados surge de algum lugar, não outro senão dos pagadores de impostos*. O dinheiro que deixa de ir aos soldados fica com os pagadores de impostos que irão gastar de alguma forma. Quanto ao mercado de trabalho, com essa liberação de recursos dos impostos, a oferta de trabalhadores é acompanhada pela demanda através dos meios necessários para o pagamento de salários. Se manter tropas desnecessariamente fosse algo bom para a economia, melhor do que manter seria recrutar toda a população para servir o exército mesmo que não seja necessário, o que é uma proposição absurda.

Impostos: De forma equivalente, a arrecadação de impostos é vista como positiva, já que aumenta o gasto governamental que irá para ajudar as pessoas e isso estimularia a indústria. O que não se vê é o mesmo do ponto anterior, o dinheiro gasto pelo governo deixa de ser gasto pelo pagador de imposto. Se o gasto governamental fosse dirigido a alguma atividade útil e necessária (supondo que isso exista), não haveria problema. Do contrário, o pagador de impostos deixa de gastar consigo e dá dinheiro para que políticos gastem com outros ou com consigo próprio (o político), sendo essa última possibilidade bastante comum. Como o autor escreve na seção seguinte, gasto público é substituto de gasto privado (substituto em termos quantitativos, não necessariamente qualitativos).

Subsídio às artes: Algo que ocorria nos tempos de Bastiat e continua a ocorrer é o subsídio estatal às artes. Argumentar contra os subsídios se confunde com ser contra o que se subsidia, ir contra a manutenção estatal de museus, por exemplo, confunde-se com ser contra museus. A decisão de manter qualquer atividade econômica deve ser de baixo para cima, deve partir das pessoas, não dos políticos. Se algo deve ser mantido ou crescer, as pessoas é que devem trabalhar para isso. Subsídio deve ser feito, mas pelas pessoas por sua livre escolha, não autoritariamente pelo estado. Como escreve Bastiat, a fé de quem assim pensa está na humanidade, não nos legisladores. Outro argumento a favor do subsídio é que isso cria emprego. Como visto anteriormente, não cria emprego nem cria gastos, apenas os realoca de forma contrária a que a fonte desses recursos (o pagador de imposto) desejaria.

Obras públicas: Os políticos têm diversos argumentos em favor de obras públicas. Se a obra em questão for falha em trazer algum benefício para a sociedade (como se discute com os estádios para o Copa do Mundo), bem, pelo menos esses gastos criam empregos. Seria um ato de caridade propor cavar buracos apenas para tapá-los novamente, como propôs Napoleão (segundo o autor) e futuramente Keynes. De fato, se vê os trabalhadores na obra pública; o que não se vê são os desempregados em outras obras que seriam financiadas pelo dinheiro que foi tirado pelos impostos. Como em outros casos, o dinheiro acaba por criar confusões. Se, ao invés disso, as pessoas fossem reunidas e ordenadas a trabalhar na construção de algo e a recompensa fosse o usufruto desse algo, não haveria benefício algum se esse algo fosse inútil (uma estrada que ninguém usará, por exemplo).

Intermediários: Há quem veja os intermediários como parasitas, ganhando sem produzir nada. Tudo o que os intermediários fazem é aproximar ofertantes e demandantes que podem estar fisicamente distante. Há outras formas de realizar transações econômicas. O demandante poderia ir direto ao ofertante o que pode ser difícil com grandes distâncias, como entre Paris e Odessa, no exemplo do autor. Outra alternativa seria o estado assumir a função do intermediário. Mas de onde viria o ganho para a sociedade? O estado seria mais eficiente em prever a demanda dos consumidores, economizaria em custos de transporte? A eliminação da margem não seria uma economia, na medida em que os agentes estatais teriam que receber para trabalharem nessa função, esse custo podendo ser igual ao lucro do intermediário. Além de não haver nenhuma fonte clara de ganho, há de perdas, já que impostos têm que ser coletados (o que tem seu custo além do tributo pago) e seria inevitável ocorrer abusos e injustiças dessa intervenção estatal. Se fosse levado a sério essa antipatia por intermediários, qualquer parte da estrutura de produção poderia ser considerado um intermediário, com a extração de minério, a siderurgia e a montagem de carros, por exemplo, sendo fases intermediárias da produção e deveriam ser sujeitas à mesma antipatia.

Restrições ao comércio: O protecionismo tem um apelo bem simples: protegendo os produtores nacionais, cria-se emprego no país, o dinheiro fica no país e é gasto no país. A razão de haver protecionismo é haver um produtor externo mais eficiente capaz de vender o mesmo produto a um preço menor ou um produto similar de maior qualidade (do contrário, não seria necessário tomar qualquer atitude para o produtor interno prevalecer). Com isso, o produtor interno ganha e o externo perde; isso se vê. O que está oculto é o consumidor, que perde com as medidas protecionistas ao ter que pagar mais pelo mesmo produto e deixando de gastar em outros produtos de sua preferência, resultando em peso morto (como o próprio autor escreve). Por fim, a restrição ao comércio pode ser imaginada como colocar guardas nas fronteiras impedindo com o uso da força a tentativa de comércio. Não é porque há uma lei que legitimize isso que a situação deixa de ser o que é, uma violência.

Mecanização: A mecanização é uma atividade mal vista. Um primeiro argumento a seu favor é comparar a sociedade atual, altamente mecanizada, com sociedades de outrora com menor mecanização, podendo voltar ao tempo das cavernas. Não é difícil se convencer que estamos em melhor situação hoje do que antes. A mecanização de uma atividade reduz o trabalho empregado. Pensando na mecanização de uma atividade doméstica (lavar roupa, por exemplo), isso é indubitavelmente positivo, já que o tempo extra sem o uso do utensílio é gasto em outras atividades mais agradáveis (argumentos meus, não do autor). Para produção de bens ou prestação de serviços, a redução no trabalho reduz o emprego, eliminando postos de trabalho. Se vê a perda de emprego em uma atividade imediatamente após a mecanização. O que não se vê é que o recurso pago para o trabalhador é utilizado em outro lugar, o que vai gerar emprego nesse outro lugar. Essa economia de recursos pode não significar lucros maiores para o produtor para sempre, na medida em que competidores podem realizar a mesma mecanização e buscar maior mercado reduzindo preços, o que levaria a um benefício ao consumidor que também significa mais empregos em outras atividades. Outro efeito é o de aumentar a produtividade, na medida em que mais trabalho pode ser feito, o que novamente beneficia o consumidor.

Crédito: Uma medida vendida como sendo benéfica aos pobres é aumentar o acesso a crédito. É ótimo que isso ocorra de forma natural, com uma maior poupança para aumentar o crédito sendo canalizada para os que não teriam crédito de outra forma. O problema se dá nas intervenções governamentais, mais especificamente (na análise de Bastiat) no subsídio, que não faz aumentar a taxa de poupança e ao invés de aumentar o crédito só o realoca. Ganha quem recebe o crédito (o que se vê) e perde quem deixa de receber ou o pagador de imposto que paga o subsídio ou o seguro do crédito (o que não se vê).

Colonização: Ter colônias parece ser um bom negócio, ao transferir desempregados do país para a colônia dando emprego a eles, estimulando a economia do país com negócios metrópole-colônia ou colônia-metrópole. O argumento contrário já foi explorado nas seções anteriores: isso apenas transfere gasto privado para gasto público e destrói negócios que seriam feitos não fosse a coleta de tributos.

O principal ponto do autor é contra gastos públicos que não beneficiem os pagadores de impostos em atividades úteis. Pelo exemplo do autor, pagar ao estado para contratar policiais e manter segurança pública é algo que beneficia o pagador de impostos e o livra de ter que ter o mesmo trabalho. Porém, gastar em inutilidades ou em algo que beneficia apenas a algumas pessoas, prejudicando as demais, traz mais perdas do que benefícios para a sociedade, fazendo com que os recursos sejam gastos de uma forma que as pessoas não desejariam. Infelizmente, muita da ação governamental é exemplificada pelo segundo tipo de gastos, não pelo primeiro. Quando os propositores deixam de considerar o mérito principal do gasto e passam a pendurar argumentos acessórios (como a criação de empregos) é sinal de que esse gasto governamental deveria ser evitado.

Parcimônia e luxúria: Nessa questão, a análise moral e econômica da maioria das pessoas parece se diferenciar. Na parte moral, a luxúria (considerado um pecado) deveria ser evitada e a moderação é recomendada; avareza também é considerada pecado, mas gastança desmedida parece ser algo menos desejável moralmente. Mas, analisando economicamente, a luxúria parece ser mais benéfica para a sociedade. O autor dá o exemplo de dois herdeiros, um que torra a fortuna herdade e outro que incorre em alguns gastos, mas poupa parte substancial. O primeiro é visto como um benfeitor, na medida em que seus imensos gastos geram rendas para muitas pessoas, enquanto que o outro pouco acrescenta para a sociedade com seus gastos. O que não se vê é que o dinheiro do poupador não fica parado, é poupado e utilizado pelo próprio poupador para a aquisição de capital ou deixado em um banco para ser emprestado. Chegará um tempo em que o gastador terá liquidado todo seu capital enquanto que o poupador poderá não só ter mantido, mas aumentado seu capital e continuará beneficiando a sociedade com seus gastos e com sua poupança por muito mais tempo. Parece paradoxal, mas poupar é gastar.

Direito a emprego e direito a lucrar: Como quase um resumo dos pontos anteriores, Bastiat discute duas medidas governamentais, uma para garantir empregos e outra para garantir lucros (protecionismo). Se vê um lado da moeda, o benefício aos contemplados, mas não se vê os custos, os impostos pagos pela sociedade.

O ensaio é curto e escrito em uma linguagem bastante simples, apesar de antigo e apesar de ser um texto técnico. Acredito ser uma leitura recomendada para todas as pessoas, inclusive crianças ou adolescentes, e seria benéfico que as pessoas não se deixassem enganar por falácias desacreditadas há séculos.

Outros textos interessantes do mesmo autor são A Petição, onde fabricantes de vela pedem para o governo banir a concorrência desleal do sol, proposta que não pode ser rejeitada sem rejeitar outras restrições ao comércio exterior, Ferrovia Negativa, que mostra como é absurda a ideia de que uma parada obrigatória do trem é benéfica ao argumentar o absurdo que seria se houvessem muito mais dessas paradas obrigatórias, e Balança Comercial, que questiona a ideia de que balança comercial positiva é um lucro quando se vende produtos mais valiosos importando produtos menos valiosos.

O livro está disponível em versão eletrônica no site do Ordem Livre juntamente com outros textos do autor. Quem preferir a versão impressa, pode participar dos sorteios no Twitter do mesmo site (como fiz) ou comprar no site Book Depository ou na Livraria Cultura, sendo que no primeiro é mais barato e o prazo de entrega menor, mas exige cartão de crédito internacional. Nos dois casos, o livro está em inglês e não conheço edição física em português. Outra alternativa bem em conta é simplesmente imprimir o livro, que é bem pequeno. Para quem desejar uma versão em áudio, tem a do Librivox, que é grátis.

* Uma crítica que é feita ao ensaio é que não considera outras fontes de receita governamental, como a dívida pública e a emissão de dinheiro. Essa omissão torna a análise incompleta, mas não errada.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sistema de Preços

F.A. Hayek
American Economic Review. Volume 35. 1945

Esse clássico artigo discute a melhor forma de alocar recursos escassos da sociedade – ou “como assegurar o melhor uso de recursos conhecido a quaisquer membros da sociedade, para fins cuja relativa importância apenas esses indivíduos conhecem”, na formulação considerada mais adequada por Hayek. O foco da abordagem do autor é o papel da informação no cálculo econômico, sendo que o conhecimento está disperso na sociedade de forma que cada indivíduo possui apenas “pedaços de conhecimento incompleto e frequentemente contraditório”.

Informação é necessária para o planejamento (decisões inter-relacionadas sobre a alocação dos recursos disponíveis). Sendo assim, a comunicação e a utilização de informações se tornam tarefas essenciais para que as pessoas façam planos. O planejamento pode ser feito de maneira centralizada, uma autoridade formulando um plano unificado e o impondo ao sistema econômico, ou de forma descentralizada, com cada indivíduo fazendo seus próprios planos competindo com planos de outros indivíduos. O sistema mais eficiente seria aquele que melhor utiliza o conhecimento existente e disperso na sociedade.

Existem diversos tipos de conhecimento. Um deles é o científico que, se fosse todo o conhecimento existente, poderia ser reunido por um grupo de especialistas que teriam possibilidades de melhor comandar todo o conhecimento existente. Mas há outros tipos de “circunstâncias particulares de tempo e espaço”, o conhecimento técnico de como desempenhar diversas atividades, informações sobre oportunidades de negócio e sobre escassez de determinados recursos, entre outras. Uma informação muito importante (não citada pelo autor) são as preferências das pessoas por um bem ou serviço, informação impossível de um planejador central possuir e que nem as próprias pessoas sabem quais são exatamente.

Informações das circunstâncias particulares de tempo e espaço mudam rapidamente. Apesar de serem pequenas mudanças em contextos localizados, essas mudanças afetam a manutenção e expansão da atividade econômica e requerem a tomada de decisões que mudam os planos existentes. O papel vital dessas modificações acaba sendo camuflado em estatísticas agregadas muito utilizadas por planejadores centrais que deveria ter acesso a todas essas informações assim que geradas para melhor formular seus planos centralizados e a sociedade deveria esperar até que novos planos sejam formulados pelo planejador central, o que não parece ser algo muito eficiente.

Por esse ponto de vista, a melhor opção é deixar que os indivíduos familiares com essas mudanças e com seus efeitos tomem as decisões, ou seja, descentralização seria mais eficiente. Isso resolve apenas parte da questão, a reação a informações imediatamente conhecidos pelo indivíduo, o que é necessário, mas insuficiente para a tomada de decisão ótima. Resta ainda tomar conhecimento de informação relevante não possuída por quem deve tomar a decisão. “Relevante” é uma palavra vaga, já que tudo pode ter influência em qualquer decisão que precisamos tomar. Segundo o autor, não é necessário conhecer todos esses eventos, nem todos seus efeitos e nem as causas das mudanças. Importa determinar quão mais ou menos difícil de encontrar algo se tornou comparado com outras coisas que também são importantes ou quão mais ou menos urgente algo é desejado.

Isso é resolvido por meio de um sistema de preços. Preços são índices numéricos que indicam a escassez relativa dos recursos, com um carro (um bem caro) sendo mais escasso do que sacolas de plástico (dadas “de graça” pelos mercados), por exemplo. Preços coordenam as ações de diferentes pessoas agindo de posse dos pedaços de informações que possuem, a ação das pessoas comunicando às demais as informações que detêm. Nas palavras de Hayek, o todo age como uno sem que alguém veja todo o campo todo, mas com os campos de visão limitados dos indivíduos se sobrepondo e se complementando de forma que toda informação relevante é comunicada.

O exemplo dado pelo autor é o do aumento do preço do estanho, que pode se dar pela descoberta de uma nova utilização para o material ou por uma perda de suprimento. Independente de qual seja a causa, o importante é que estanho está mais escasso e que deve ser destinado àqueles que veem mais valor no material (os que tem a destinação mais lucrativa). O conhecimento de que uma mina de estanho foi fechada, por exemplo, é comunicada a todos os que demandam estanho (ou que demandam produtos que utilizam o metal como insumo) através de um aumento no preço sem que seja necessário tomar conhecimento direito do fechamento da mina. Sem que nenhuma ordem explícita tenha sido emitida, milhares de participantes anônimos do mercado tomam a decisão correta de consumir menos do material que se tornou mais escasso. A pessoa não precisa saber os motivos para tomar a decisão (economicamente) correta, basta seguir os incentivos, e não precisa que ninguém o guie nessa direção.

Hayek não sugere que essa comunicação por meio de preços seja perfeita, sugere sim que planejamento central é muito pior do que imperfeições nos preços. Futuramente, economistas viriam a estudar o que se convenciona chamar de falhas de mercado como informação assimétrica, externalidades e bens públicos. Chamar de “falhas de mercado” me parece que provoca muitas reações eufóricas ou furiosas. São mais falhas do sistema de preços sem nenhum complemento que não necessariamente exigem regulamentação governamental. No caso de informações assimétricas, problemas de seleção adversa podem ser resolvidos por meio de construção de reputação e marcas e problemas de risco moral podem ser resolvidos por meio de busca por certificações (um exemplo é das seguradoras examinarem o histórico infrações de trânsito de potenciais clientes).

Essa discussão se aplica muito ao mercado acionário, na medida em que preços das ações incorporam informações sobre a emissora e sobre o mercado e mudanças nos preços podem ser interpretadas como mudanças nas informações disponíveis. Não por outro motivo, a hipótese de mercados eficientes que tem como conclusão final a dificuldade, se não impossibilidade, de obter retornos anormais é racionalizada como uma situação onde os preços incorporam todas as informações disponíveis. Se não o fizesse, seria possível obter retornos ajustados ao risco de forma consistente, o que é algo difícil de se obter. Um artigo sobre eficiência de mercado que será aqui comentado cita o artigo de Hayek explicando como um mercado acionário repleto de investidores irracionais pode mesmo assim ser eficiente por meio da comunicação de informações através dos preços.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Links (07-13/05)

Economia
Pensamento econômico vira refém da crise –“além de cuidar da estabilidade de preços, deveriam [os bancos centrais] também vigiar e tentar impedir a formação da bolhas financeiras”. Afirmação curiosa, posto que os bancos centrais desestabilizam os preços e criam bolhas especulativas.

A mão invisível também erra – Resenha de livro da edição 992 da Exame. Há uma série de coisas com as quais não concordo na resenha (não sei se também no livro). Algo notável é a falta de senso de ironia na interpretação do vídeo “Fight of the Century”. Keynes é declarado vencedor no vídeo, embora tenha sido nocauteado. E isso corresponde bem à realidade: Henry Hazlitt escreveu um livro inteiro à crítica à “Teoria Geral” de Keynes, os erros de Keynes e de seus seguidores (como Krugman) são constantemente apontados em sites como o Mises Internacional, o Mises Brasil e nesse blog, os “pacotes de estímulo” de política fiscal expansionista não estimulam a economia e ele ainda é apontado como o maior economista de todos os tempos.



The Perennial Hubris – (Des)incentivos governamentais




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