segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Há 40 anos...

Vanguard

O Journal of Portfolio Management lançou uma edição especial de aniversário de 40 anos. Uma feliz quase coincidência é que também há 40 anos foi criada a empresa de fundos de investimento Vanguard de John Bogle, como ele mesmo aponta em um dos artigos.


Disse que é uma quase coincidência porque o próprio Bogle aponta um dos artigos publicados na primeira edição da revista como uma fonte de inspiração. Trata-se do Challenge do Judgment de Paul Samuelson, um curto artigo no qual o prêmio Nobel de 1970 chega ao veredicto de que “desempenho superior em investimentos não está provado”. Samuelson não nega que existam gestores de desempenho superior, mas no abstract (que, até alguns anos atrás, era um parágrafo logo abaixo do título, mas que aboliram em tempos recentes, infelizmente) afirma que eles se escondem muito bem. Além disso, afirma que os “fatos brutos” não mostram evidência de que existam de maneira consistente.

A consequência disso, segundo Samuelson, é que a indústria de gestão estava atraindo recursos demais (em especial, recursos humanos) e que ao menos as grandes fundações deveriam investir em uma carteira que seguisse o S&P 500. Essa não era uma prática em voga e não havia nenhum produto de investimento que seguisse essa linha. E foi esse o ponto que chamou a atenção de Bogle e o inspirou a criar a Vanguard. Ou seja, alguém poderia imaginar que a Hipótese de Mercados Eficientes (que já estava em circulação em 1974) era a inspiração de Bogle, ou que era o CAPM, mas a verdade é que a grande “musa” de Bogle foi Paul Samuelson, citado várias vezes ao longo do artigo (diferente de Fama ou Sharpe). Na verdade, mesmo em um mercado ineficiente a gestão passiva teria um imenso valor, dada a Aritmética da Gestão Ativa e a Hipótese de que custos importam. Bogle até trata com certa ironia a HME, dizendo que a sua abordagem é muito mais pragmática e simples.

São dois temas comuns dos trabalhos de Bogle, em especial na própria JPM, um deles a gestão passiva e outra a estrutura da indústria de fundos (tema de sua tese de graduação). Nesse segundo ponto, a Vanguard foi pioneira também ao focar nos custos e eliminando taxas de carregamento, que eram comuns na época e hoje estão bem menores e menos frequentes. A filosofia de Bogle era a de colocar o interesse do cotista (ou acionista, como se fala nos Estados Unidos) do fundo em primeiro lugar, o que inclui a eliminação de custos. A estratégia de Bogle era oferecer o primeiro fundo indexado da história ao menor custo possível (0,05% hoje em dia com investimento inicial de US$ 10 mil e adicional mínimo de US$ 100, sendo essa a coisa que mais invejoso nos americanos, ter acesso a esse fundo).

No artigo, Bogle conta a história da criação da Vanguard em 1974 como cisão da empresa que ele dirigia, a Wellington, e o lançamento do primeiro fundo indexado no ano seguinte, o (Vanguard) First Index Investment Trust. Não foi uma trajetória fácil, já que ele encontrou diversos obstáculos e até acusação de ser antipatriótico. Analisa também a sua alegação de que foi realmente o primeiro fundo indexado (spoiler: sim, foi). E demoraria uma década para que o segundo fosse lançado e hoje temos uma série de fundos indexados e até ETFs. O artigo aborda outros temas, basicamente uma revisão de todos os artigos publicados por Bogle na JPM, mas considero a criação da Vanguard o principal.

Considero John Bogle a pessoa mais importante de investimentos (teoria e prática) do século XX ao criar um excelente e barato produto de investimento que basicamente é a única coisa que qualquer investidor precisa ter ao investir em ações (não significa que todo mundo deveria investir apenas em um fundo indexado, mas que fazer isso já é suficiente para a maioria das pessoas). Como Paul Samuelson comparou, a invenção do fundo indexado é o equivalente à imprensa de Gutenberg para os investimentos, criando um produto valioso a um baixíssimo custo.

John Bogle
Journal of Portfolio Management – 40 years. 2014

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