terça-feira, 19 de junho de 2012

Hipótese do ciclo de vida de Modigliani

(Franco Modigliani and the Life Cycle Theory of Consumption)
Angus Deaton. 2005

Mais conhecido pelos teoremas de irrelevância da estrutura de capital e da irrelevância da política de dividendos, Franco Modigliani não ganhou o Nobel apenas por essas suas contribuições, e talvez nem principalmente por isso (ou Merton Miller teria ganho o Nobel junto com Modigliani, e não em 1990 junto com Sharpe e Markowitz), e sim pela hipótese do ciclo de vida (vamos abreviar como HCV). A teoria desenvolvida inicialmente em Modigliani e Brumberg (1954) é bastante simples: as pessoas poupam nas fases inciais da vida para suavizar o consumo ao longo do ciclo de vida e ter dinheiro para manter o padrão de vida na aposentadoria. Como argumenta Angus Deaton, apesar de simples, essa ideia resulta em diversos desdobramentos não triviais, como a explicação das taxas de poupança e como variam de acordo com variáveis demográficas e econômicas.

Deaton começa o texto mostrando como a HCV não é tão trivial e óbvia quanto parece a sua formulação. Uma implicação da HCV é que quando as pessoas se aposentam elas vendem seus ativos, que devem ser comprados pelos mais jovens, que ainda estão na fase de acumulação. Outro fator a ser considerado é o crescimento, tanto da população quanto das rendas. O crescimento populacional indica que há mais jovens (acumulando patrimônio) do que velhos (desfazendo-se do patrimônio), gerando poupança líquida positiva. O mesmo ocorre se houver um aumento na renda. Se isso ocorrer, o mais importante não é o nível de renda, apenas a sua taxa de crescimento, já que novas riquezas serão criadas e não apenas passadas de geração para geração. E também haveria uma relação entre a riqueza e duração da aposentadoria, a razão entre patrimônio e renda devendo ser metade da duração média da aposentadoria (não sei qual a fonte dessa informação de Deaton).

Diversas teorias sobre consumo e poupança foram criadas, principalmente a partir da Teoria Geral de Keynes. Muitos trabalhos empíricos foram publicados gerando diversos fatos estilizados, mas faltava algo para juntar esses estudos. A HCV é consistente com a teoria da escolha do consumidor e resiste a diversos testes da época. Uma primeira crítica que poderia ser feita é que a taxa de poupança geralmente acompanha o crescimento de renda, de forma que pessoas com maior renda tendem a também poupar mais, contrariamente ao que seria de se esperar inicialmente. Porém, o que se observa é que parte do aumento de renda é transitório de forma que a maior taxa de poupança também é transitória. No nível macro, a taxa de poupança agregada deveria ser constante ao longo do tempo, mas variará de acordo com o ciclo de negócios.

Diversas críticas à HCV foram feitas ao longo do tempo. Das injustas, segundo Deaton, estão a de que essa é uma “teoria dos solteiros” (o fato da pessoa ter filhos não muda significativamente a teoria e a inclusão desse fator mais confunde do que explica) e que as pessoas deixam de considerar alguns rendimentos como “renda” nas pesquisas (o que na verdade cria um viés contra a HCV). Afora essas críticas imprecisas, outras foram formuladas. Incertezas quanto à longevidade e desejo por deixar um legado intencionalmente mudam a importância da HCV na explicação do comportamento das pessoas (mas não se sabe a magnitude dessa modificação). James Tobin imagina o cenário em que a pessoa suavizaria o consumo contraindo dívidas no começo e venderia ativos no final da vida, da forma que haveria consumo de poupança no começo e no fim do ciclo e talvez até haja relação negativa entre crescimento e taxa de poupança. Modigliani credita como pouco plausível esse comportamento.

A HCV gera várias previsões teóricas que precisam ser testadas com dados empíricos para se constatar a sua validade. Demorou para ser possível reunir dados suficientes sobre os países para testar as previsões da relação entre taxa de poupança, demografia e renda. Em artigo de 1992, Modigliani constatou a relação entre crescimento e demografia com a a taxa de poupança, com pouca influência do nível de renda. Testes foram feitos sobre a relação entre demografia e taxa de poupança, com evidências anômalas ao que seria de se esperar da HCV. Observa-se ainda relação entre crescimento e poupança, mas é difícil estabelecer causalidade. Precaução por conta da incerteza de rendas e taxas de retorno é outro motivo para investir além de preocupações com ciclo de vida traz maior complexidade para a questão, mas não chega a ser incoerente com a HCV e até é uma explicação adicional para o fato das pessoas não quererem suavizar o consumo aumentando o endividamento no começo da vida.

Outro desafio da HCV vem da Economia Comportamental. A primeira observação (extensível para outros assuntos), é que a Economia Comportamental encontra diversas anomalias em teorias alheias, mas de forma geral não consegue reunir seus achados em uma teoria unificada para explicar os fatos que procura examinar. Contribui enormente para o debate, mas não oferece um modelo alternativo (na maioria dos casos). Como escreve Deaton, economistas têm o receio de que se a maximização de utilidade for abandonada, então tudo será possível. Mais concretamente na HCV, a questão do desconto hiperbólico faz com que as pessoas prorroguem começar a poupar, contrariamente ao que a HCV prevê. Além disso, a HCV mostra o que as pessoas fariam se tivessem interessadas no seu bem-estar, mas nem sempre as pessoas agem da melhor maneira para seu próprio bem. Talvez a economia comportamental venha a comprovar que as pessoas não agem conforme o prescrito na HCV, mas, como em outros tópicos, isso só invalida a HCV como uma teoria positiva, mas não como teoria normativa.

Esse é um resumo do resumo das ideias de Modigliani para o que seria seu aniversário de 94 anos. Quem sabe no ano que vem faço algo melhor, sem atraso e sem improviso.
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Fonte da imagem: Umofomia via Wikiédia

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