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segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Review: Workshop LinkedIn na prática


Eu participei do Workshop LinkedIn na prática de Cristiano Santos, um curso bem interessante com dicas práticas para melhorar o seu uso do LinkedIn.


O curso é muito útil para desmistificar vários conceitos sobre a rede social. Acho que o mais importante desses é que, apesar de ser uma rede profissional, não é esperado ou mesmo desejado que os participantes deixem de lado a parte pessoal quando está no LinkedIn. Claro que não é bom ir demais para o lado pessoal, há outras redes sociais para isso, mas o ponto principal é humanizar o profissional quando mostrando o seu perfil ou interagindo na rede social.

Outro ponto importante é que o LinkedIn NÃO É apenas, talvez nem principalmente, para procurar e divulgar vagas de trabalho. A rede seria um fracasso de outro modo, considerando que as pessoas não estão constantemente procurando emprego. Essa é uma rede social para troca de ideias e experiências profissionais, que não precisam ser necessariamente feitas com um profissionalismo rígido, mas sim de modo humanizado. Outras redes sociais também poderiam proporcionar isso, mas são anarquias tão gigantescas que as pessoas preferem não se expor muito nelas ou sequer delas participar. Sendo um ambiente muito mais civilizado, as pessoas se sentem mais confortáveis de participar do LinkedIn (conclusões minhas, o professor não chegou a fazer essa comparação). Eu, por exemplo, sigo todos os diretores da Aneel, RIs e presidentes de diversas empresas, repórteres, pessoas que poderia nunca ter contato de outra forma.

Ao longo do curso o professor vai passando diversas dicas práticas bem interessantes. Uma boa parte do curso é dedicada ao preenchimento completo do seu perfil. E uma coisa interessante, ligada com a ideia de trazer o lado pessoal para o profissional, está no preenchimento do Resumo. Esse espaço certamente serve para mostrar as qualificações e experiência do profissional, mas há uma grande abertura para acrescentar aspectos mais pessoais que ajudem as pessoas a entender quem você é, não apenas o que faz. Ao invés de um bloco de texto enumerando tudo o que o profissional fez ou estudou, informação disponível em outros campos, as pessoas querem ler um pouco da sua história e simplesmente se entediam se você só vai listando uma série de coisas. Acho que o ideal seria ligar o pessoal ao profissional quando mencionando temas mais particulares, mas são mostrados em aula vários casos reais de bons perfis que simplesmente citam gostos pessoais e até indicam o perfil no Instagram “para amenidades”. E esse é um aspecto interessante da aula, o professor mencionando perfis que ele acha que faz um bom trabalho na rede e recomendando seguir ou conectar.

O professor entende muito do assunto e tem uma didática incrível. No primeiro ponto, o SSI (uma nota de 0-100 para o seu perfil) dele é 80, sendo, ao que me parece, muito difícil ir muito além disso. 60 é considerada uma boa nota e, sem entregar a minha, eu ainda tenho um longo caminho até lá. No segundo ponto, o Cristiano é muito carismático, consegue dar uma dinâmica boa para a aula e oferece um atendimento personalizado na parte prática do curso quando temos que modificar o nosso perfil no LinkedIn em aula. A carga horária é de 8 horas e o investimento começa em R$ 299 (se você comprar o curso cedo), valor obviamente que pode mudar no futuro.

Em suma, é um excelente investimento a esse preço. Sigam o Cristiano Santos no LinkedIn para ter mais dicas e também saber a data dos próximos cursos. Vocês podem também mandar pedido de conexão para mim (https://www.linkedin.com/in/robertoushisima/)

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Procurando a quem culpar


Um dos comportamentos mais bem conhecidos do investidor pessoa física é o efeito disposição, a propensão a segurar as ações que mais se desvalorizaram ao invés de vendê-las. Um artigo recente do Journal of Finance procura entender o padrão para fundos de investimento.

Ao contrário do que ocorre com ações, a propensão do investidor é a de desinvestir os fundos que mais se desvalorizam, um resultado que me parece bem conhecido na prática; gestor de fundo algum se sente confortável quando as cotas estão se desvalorizando e isso tem um motivo mais forte do que o orgulho ferido, e sim a remuneração, já que perdas resultam em saques. Ora, há até mecanismos para evitar um volume excessivo de resgates que possam prejudicar a liquidez e as estratégias do fundo, pensadas justamente para esses casos. A relação é até mais forte para o caso contrário (fundos com bons retornos recebem mais aplicações), mas também é válido para a relação perda-resgate.

Uma potencial explicação, encampada pelos autores do artigo, é a de que o efeito disposição se reverte quando a gestão é delegada. O efeito disposição é uma dissonância cognitiva, o desconforto que surge quando há o reconhecimento de que a pessoa mantém duas crenças incongruentes: a ideia de que a pessoa é boa em gerir os seus investimentos se choca com a realidade de que não é, dado o retorno da ação que escolheu comprar. Ao invés de mudar uma de suas cognições (sou um investidor competente), os investidores geralmente utilizam de diversos artifícios mentais para não reconhecer o seu erro. O viés cognitivo que força os investidores a não vender ações perdedoras é o de não querer admitir que a pessoa tenha cometido um erro porque isso afetaria a imagem que têm de si mesmas. Deve ser por isso que o pensamento de “se não vendi, não perdi” com o corolário de que se você não realizar perdas então há uma chance de recuperar os prejuízos. Se o investidor vender a ação perdedora, estará tornando a perda “permanente” e admitindo para si mesmo que errou, enquanto que mantendo o investimento há sempre a esperança de que seja algo temporário e que a ação voltará ao mesmo patamar de quando comprou.

Julgando racionalmente, você pode recuperar as perdas mantendo o investimento, mas também pode vendendo e aplicando em outro ativo. E mesmo que a perda não tenha sido realizada, ela já ocorreu sim. As pessoas deveriam se preocupar mais com o quanto possuem do que com a rentabilidade desse investimento específico. Se tinha R$ 100 mil e perdeu 50%, precisa decidir o que vai fazer com os R$ 50 mil que possui e esquecer os R$ 100 mil que uma vez teve e não tem mais. Considerar ou não se a perda de R$ 50 mil é permanente ou não é mera questão de terminologia, o fato é que pode ou não voltar a ter R$ 100 independente de ser com essa ação ou com outra (ou mesmo com outro tipo de investimento).

De todo modo, esse efeito é revertido para fundos porque a pessoa encontra alguém para botar a culpa, que é o gestor do fundo. Aplicando diretamente em ações, o culpado é única e exclusivamente o investidor; aplicando indiretamente, é sempre possível culpar o gestor e admitir como única culpa o erro de ter confiado na pessoa errada. E mesmo admitindo essa falha, resgatar o fundo perdedor serve para satisfazer o mecanismo cognitivo de colocar a culpa em outra pessoa sem maiores prejuízos à auto-imagem. Nesse sentido, o gestor do fundo é um alvo fácil para se colocar a culpa, mais do que o abstrato “mercado”, ou o diretor-presidente da empresa ou outra pessoa. Resgatar o fundo é uma ação que diminui a perda psicológica provocada pelo prejuízo transferindo a culpa por esse resultado negativo de uma forma contrária ao que acontece com ações, onde a venda seria a confirmação de que o investidor tomou uma má decisão.

O estudo procurou testar essa hipótese usando a base de dados de Barber e Odean (2000). Um fator que aumenta a credibilidade da pesquisa é que a base de dados utilizada permite estudar investidores que aplicam em diversas classes de ativos e estudar como é seu comportamento com cada uma. Ou seja, se muitos investidores seguram ações perdedoras ao mesmo tempo em que vendem fundos perdedores, então corrobora-se a hipótese. Assim, é menos provável que o efeito observado seja meramente uma diferença de preferências com relação a risco ou retorno, ou mesmo que investidores em ações sejam irracionais e em fundos sejam mais racionais. Testes experimentais também foram utilizados para testar a hipótese.

Dessa forma, os testes foram feitos analisando ao mesmo tempo ações e fundos. As equações de regressão utilizada foram:

Sale é uma variável dummy com valor 1 caso o investidor tenha vendido a ação ou fundo, Gain é outra variável dummy com valor 1 caso o investidor tenha vendido com lucro e Fund é outra dummy com valor 1 para os casos em que a negociação envolve fundos. Coeficiente positivo para Gain indica efeito disposição (vender vencedores e manter perdedores) e coeficiente negativo indica o efeito disposição reverso.

Os testes são feitos em três grupos: aqueles que possuem um ou outro tipo, aqueles que em algum momento chegaram a ter os dois tipos de ativos e as situações em que os investidores tinham as duas classes ao mesmo tempo. Em todos os casos, o coeficiente b1 para ações é positivo variando entre 1,57% e 3,91% que incidem sobre uma constante (b0) entre 18,88% e 21,70%. Para fundos, o coeficiente é sempre negativo variando entre -4,85% e -6,56% e a constante varia entre 23,16% e 32,49%. Dessa forma, o efeito disposição reverso para fundos é ainda maior do que o já muito documento efeito disposição para ações.

Outro teste importante é restringir ainda mais as classes de ativo para examinar se o efeito disposição tem a ver com a delegação de gestão. O coeficiente b1 é positivo e estatisticamente significativo para quatro ativos, todos eles de gestão não-delegada (Warrants, Ações canadenses, Ações estrangeiras, Ações americanas) enquanto que o coeficiente é negativo e significativo para sete classes, sendo que duas delas têm características de serem de gestão não-delegada e o restante delegada.

Em outra parte do artigo, os fundos de gestão passiva são examinados destacando-os dos fundos de ações. No teste básico considerando apenas fundos indexados (primeira equação acima), o coeficiente sobre a variável Gain é estatística e economicamente insignificante (0,35%). Considerando todos os tipos de fundos e usando a segunda equação (trocando Fund por Index para indicar se o fundo tem ou não gestão passiva), a soma de b1 e b2 é praticamente zero, sendo b1 negativo e b2 positivo. Ou seja, um fundo indexado tem praticamente a mesma probabilidade de ser liquidado da carteira esteja ou não ganhando.

Levando em conta o viés de sobrevivência, b2 se torna mais positivo e a soma de b1 e b2 indicando efeito disposição. Esse resultado leva a uma nova pergunta, sobre se há uma diferença de efeito disposição entre ações e fundos indexados, repetindo a segunda equação com Index no lugar de Fund. B1 é positivo e significativo, mas b2 e b3 não são estatisticamente significativos, o que corrobora a ideia de que não há diferença de efeito disposição entre as duas classes de ativos.

Dessa forma, ativos que possuem gestão delegada apresentam efeito disposição reverso, ou seja, desvalorizações levam a desinvestimentos porque os investidores colocam a culpa de suas perdas nos gestores. Esse resultado se dá mesmo considerando um investidor que investe em ações e fundos ao mesmo tempo.

Para examinar mais a fundo essa questão e testar hipóteses que não podiam ser trabalhadas observando a base de dados, os autores realizaram experimentos com alunos de graduação. O desenho básico do experimento separava os alunos entre os que iam negociar ações (componente do Dow Jones) e fundos (os melhores classificados pela Morningstar) que recebiam um patrimônio hipotético de US$ 100 mil. Antes, foi aplicado um teste para examinar a atitude com relação ao risco e a experiência com investimentos.

Os estudantes tinham que escrever as razões que levaram a tomar a decisão de investimento como parte do exercício e também recebiam dois tratamentos especiais. No primeiro (“Estória”), eram constantemente lembrados de seus raciocínios para comprar ou vender ações ou fundos, de forma a aumentar a dissonância cognitiva. Ou seja, se o aluno comprou uma ação e ela se desvalorizou, eram lembrados que eles tomaram a decisão de comprar a ação. O segundo tratamento (“Demitir”), exclusivo para fundos, era substituir a nomeação da decisão de Comprar/Manter/Vender para Contratar/Manter/Demitir, além de haver um link para a biografia do gestor, com o objetivo de ressaltar que os resultados se devem ao desempenho de outra pessoa que você contrata e demite.

Com base nos resultados desses experimentos, os autores realizaram testes parecidos com os utilizados na base de dados, acrescentando variáveis dummy para indicar se o estudante estava em um dos grupos de tratamento e a interação dessa variável com Gain, essa última sendo a variável de interesse. Para fundos, tanto a interação entre Gain e Estória e quanto entre Gain e Demitir são negativas e b1 é insignificante. Ou seja, quando realçamos elementos que reforçam o efeito disposição reverso, de fato os alunos apresentam maior tendência a vender fundos perdedores. Para ações, considerando apenas o tratamento Estória (já que o Demitir não se aplica), verificamos que a interação Gain e Estória é positivo, indicando que ressaltar a dissonância cognitiva faz com que os investidores apresentem maior efeito disposição para ações.

Ao final do experimento, os estudantes precisavam preencher um questionário avaliando o quanto que aprendeu ao longo do experimento sobre a sua própria habilidade como investidor e a habilidade do gestor, para o caso dos que investiam em fundos. De forma geral, não houve muito efeito do aprendizado. Era importante analisar essa questão, já que os resultados observados podiam se dar por meio do aprendizado. Mas, segundo os testes dos autores, estar em um dos grupos de tratamento não afetou de maneira significativa o aprendizado. Levando em conta os resultados (ganhos ou perdas), há alguma evidência de que os alunos aprendem menos sobre a sua própria habilidade quando perdem, reforçando o efeito da dissonância cognitiva entre os resultados e a sua auto avaliação que levam ao efeito disposição.


Dessa forma, há um efeito disposição para ações, mas um efeito disposição reverso para fundos, efeito explicável pela dissonância cognitiva, e não por outros fatores (rebalanceamento, reversão à média, diferentes curvas de utilidade etc.) que podem até explicar o comportamento para ações, mas não para fundos. Ou seja, os investidores se desfazem de investimentos perdedores quando podem colocar a culpa em alguém e, quando não podem, mantém o investimento porque isso seria a confissão de que o culpado pelas perdas é ninguém mais a não ser o próprio investidor. Perder dinheiro, então, não é apenas uma questão financeira, mas também de autoestima.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Suspensão de blogs de finanças

No dia 25/11/15, a Comissão de Valores Mobiliários, através das Deliberações nº 742-744, suspendeu por atuação ilegal três sites, dois deles por prestação de serviços de análise de valores mobiliários.


Um dos sites afetados foi O Pequeno Investidor e vou me concentrar nesse caso, pois é o único dos três que conheço. O motivo alegado pela CVM na Deliberação nº 742 foi a de que o blog vinha “oferecendo publicamente no Brasil serviços de consultoria e análise de valores mobiliários”. Essas atividades dependem de autorização prévia da autarquia, o autor não possuindo tal permissão. O documento não detalha as razões que levaram a CVM a considerar que o autor do blog desempenhava a atuação mencionada.

Em um depoimento para o site Infomoney, reproduzido na página do Facebook do blog, o autor do site se defendeu, negando ter prestado serviços de consultoria ou análise, nem de forma paga nem gratuita. Mesmo quando comenta a respeito de uma ação, o autor diz não fazer uma recomendação de compra ou venda, e sim “apenas um estudo com o objetivo de estimular a discussão e a reflexão sobre a qualidade do investimento”. No momento, o blog está fora do ar por conta da notificação da CVM.

Algumas definições são necessárias para entender essa história. A atividade do analista de investimentos está normatizada pela Instrução CVM nº 483/10 e posteriores alterações. O analista é definido como a pessoa natural que “em caráter profissional, elabora relatórios de análise destinados à publicação, divulgação ou distribuição a terceiros, ainda que restrita a clientes”. Já relatórios de análise são definidos como “quaisquer textos, relatórios de acompanhamento, estudos ou análises sobre valores mobiliários específicos ou sobre emissores de valores mobiliários determinados que possam auxiliar ou influenciar investidores no processo de tomada de decisão de investimento”. Para exercer essa atividade, o analista precisa ser certificados e credenciados para a atividade. A pessoa deve não apenas obter a certificação CNPI da Apimec, mas também ser credenciado e pagar a taxa de fiscalização da Apimec. O próprio autor do blog O Pequeno Investidor confirmou que não era certificado, e diz que sempre deixou claro que mencionava esse fator em seus textos.

Pelas definições acima, alguns pontos se tornam nebulosos. O que define “caráter profissional”? O autor do blog, pelo que sei, não vivia da página e a mantinha meramente como uma atividade secundária. Creio que monetizava o site com anúncios e, novamente até onde sei, não cobrava por acesso ao conteúdo. A questão de cobrar ou não me parece secundária, já que a Instrução nunca menciona a atividade ser remunerada ou não, mas talvez interferisse na parte do “caráter profissional”. Mas o ponto principal é o que define se a publicação pode auxiliar ou influenciar os investidores. Como o autor mencionou em seu depoimento, jornalistas talvez pudessem ser enquadrados nos mesmos critérios, e a Instrução não abre exceções para o trabalho jornalístico, não sei se outra norma a respeito da liberdade de imprensa se sobrepõe a essa norma.

Pela minha compreensão dessa história, a CVM entendeu que os comentários do autor sobre as empresas se enquadram como relatórios de análise. O autor mencionou que não faz recomendação ou sugestão, mas a norma não diz que precisa necessariamente ter esse caráter, apenas poder “auxiliar” ou “influenciar”. Mas, novamente, se o blogueiro se encaixa nessa definição, talvez outras pessoas, inclusive jornalistas, poderiam também ser enquadradas. Ficou a mim a dúvida sobre qual o critério utilizado pela CVM.

Mas ainda mais nebulosa é a suposta atuação irregular como consultor de valores mobiliários, atividade normatizada pela Instrução CVM nº 43/85 (sim, de 1985, mas velha do que eu!). Tal documento sequer define o que é um consultor de valores mobiliários, apenas diz que o profissional deve ser certificado para exercer tal atividade. Em sua página, a CVM define a atividade como “assessorar os investidores interessados em fazer aplicações diretamente no mercado”. Uma nova Instrução está sendo preparada a respeito dessa atividade, mas, enquanto isso, os critérios para a certificação profissional são regidos pelo Processo CVM nº RJ2008/0296. Nesse documento, são fornecidos alguns critérios, em especial experiência profissional comprovada de no mínimo três anos no mercado de capitais em qualquer atividade que “possa evidenciar aptidão para a consultoria de valores mobiliários”.

O autor d’O Pequeno Investidor também não possui tal certificação, mas a questão maior aqui é sobre qual conteúdo do site poderia ser enquadrado como consultoria, como assessoramento de “investidores interessados em fazer aplicações diretamente no mercado”. Eu conheço superficialmente o blog e desconheço qual tipo de conteúdo poderia ser encaixado nessa categoria. Dessa forma, não posso comentar mais especificamente, mas ainda continuo não entendendo os critérios exatos que foram utilizados.

Outra dúvida que tive ao estudar esse caso diz respeito ao que consiste a autorização prévia da CVM. Entrei em contato por e-mail com a Gerência de Registros e Autorizações (GIR) perguntando se tal autorização era meramente possuir a certificação CNPI para o caso da análise de investimentos e a gerente da GIR me confirmou que era isso. Para o caso da consultoria de valores mobiliários é necessário, óbvio, o credenciamento na CVM para essa atividade.

Do que eu retiro dessa história, tenho algumas preocupações. A mais imediata, óbvia e pessoal é sobre o meu próprio blog. Eu possuo a certificação CNPI, o que, aparentemente, me permite publicar relatórios de análise, no caso da CVM entender que algum conteúdo por mim publicado possa se encaixar nessa categoria e não creio que haja, a não ser por um critério muito rigoroso. Porém, ao não haver uma definição mais clara sobre o que constitui consultoria de valores mobiliários, poderia ainda estar vulnerável a esse enquadramento, muito embora eu duvida ainda mais de que tenha assessorado diretamente (ou mesmo indiretamente) alguém por meio desse blog. Mesmo estando com uma razoável certeza de que não posso ser considerado irregular, a partir de hoje e até que eu consiga credenciamento como consultor de investimentos (e, talvez, até depois disso) eu permanecerei constantemente com receio de que posso acordar com uma notificação da CVM a respeito deste blog após essas notícias.

Uma preocupação mais abrangente diz respeito à liberdade de expressão. Não vou entrar no mérito sobre se essas atividades deveriam ou não ter regulação estatal, mas o ponto é que uma atuação muito rigorosa da CVM nesse caso poderia limitar a liberdade de expressão e, no limite, até a liberdade jornalística. As pessoas poderiam ficar com receio de serem punidas ao expressar opiniões sobre temas financeiros por temerem que essas opiniões possam ser entendidas como relatório de análise ou consultoria. Se isso ocorrer, o tema passará a ser um oligopólio de poucos, o que é sempre perigoso.

Na discussão sobre o tema, muitas pessoas reclamaram que a atuação da CVM é um exagero e que outros crimes estão deixando de ser investigados. Entendo que a CVM tem exercido o seu papel regulador com alguma competência e entendo também que deve se preocupar sim com o exercício irregular da atividade de analista. No que se refere a sites e blogs, o caso d’O Pequeno Investidor não é o que mais me preocupa e volto a ele no parágrafo final deste texto. O que me preocupa mais são sites com autores anônimos oferecendo conselhos de investimento e mesmo vendendo relatórios de análise sem ter permissão para tal (Como mencionado, os autores são anônimos, então, mesmo que tenham credenciamento, o que eu duvido, talvez continuem irregulares). Um desses sites aparentemente foi alertado pela CVM e parou de publicar análises pagas, embora eu não tenha encontrado a deliberação a respeito desse site em específico, mas devem existir outras dezenas como esse espalhados pela internet, nem todos muito bem intencionados.

O Pequeno Investidor, pelo (pouco) que conheço, me parece bem intencionado. Em um comentário em sua própria publicação no Facebook onde fornecia o seu depoimento sobre a situação, o autor do blog disse que está estudando para obter as certificações. Tomara que consiga, já que todos sairiam ganhando: ele por voltar a escrever, seus leitores que poderão aproveitar o seu conteúdo e até a própria CVM em sua função educacional. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Importância econômica da literacia financeira

Fonte da imagem: Investment Juan

Artigos de Annamaria Lusardi já apareceram anteriormente no blog. Ela volta ao tema em artigo publicado no Journal of Economic Perspective em 2014 em co-autoria de Olivia Mitchell.


Literacia financeira é definida como a capacidade das pessoas processarem informações econômicas e tomar decisões informadas sobre planejamento financeiro, acumulação de patrimônio, dívidas e pensões. Conhecimento financeiro pode ser entendido como um capital humano e o objetivo do artigo é revisar a literatura em busca de determinar os retornos auferidos com esse conhecimento.

Os estudos recentes sobre literacia financeira suprem duas lacunas. Primeiro, há muitas teorias sobre investimentos e planejamento de aposentadoria que supõem que as pessoas conseguem se planejar e executar esse planejamento, o que sabemos que não é verdade. Além disso, muito já se escreveu sobre a economia da educação, mas o conhecimento financeiro necessário para a aquisição de produtos financeiros só agora começou a ser mais estudado. 

O problema era unificar em um modelo teórico manejável a questão da aquisição de conhecimento financeiro. As duas autoras do artigo mais Pierre-Carl Michaud escreveram um artigo onde procuravam modelar essa questão. A pessoa pode utilizar uma “tecnologia” simples (sem conhecimento financeiro) recebendo uma baixa taxa de retorno ou investir em conhecimento pagando custos diretos e indiretos (tempo). Essa pessoa recebe rendas no mercado de trabalho e está sujeita a riscos vindos do mercado de trabalho, da longevidade e do custo da medicina. Usando a tecnologia mais avançada (com conhecimento financeiro) pode receber rendas maiores, mas está sujeita a mais risco. A cada período, a pessoa toma uma decisão sobre quanto consumir e quanto investir, podendo inclusive investir em conhecimento financeiro.

O modelo tem algumas implicações. Uma delas é que as pessoas decidirão quanto investir em conhecimento financeiro em função do custo de aquisição desse conhecimento. Pode parecer trivial, mas não basta tocar no assunto, é necessário reduzir o custo financeiro e psíquico, facilitando a abordagem do assunto. Implicações mais complexas incluem a previsão de que o conhecimento financeiro pode ser uma das fontes da desigualdade.

Mais interessante do que as previsões teóricas do modelo são as evidências empíricas. Antes de chegar nessa parte, o artigo mostra como a literacia é medida. Já expliquei isso alhures e não vou me repetir aqui. Nesse mesmo texto, também falei sobre o estado do conhecimento da população em diversos países a respeito da literacia financeira, com resultados bem pobres, a maioria das pessoas desconhecendo conceitos financeiros básicos. Os resultados ocorrem em todas as faixas etárias e nos diversos países examinados em diversos estudos. O pior de tudo é que, quando perguntados sobre o nível de conhecimento que as pessoas achavam que tinham, boa parte acreditava que conhecia sobre o assunto. Ou seja, o nível de literacia é baixo, mas a maioria das pessoas não se dá conta disso.

Pessoas mais velhas possuem um nível menor de literacia financeira, mas são os que mais acreditam que possuem os conhecimentos necessários. Mulheres possuem menor nível de literacia, mas também são mais conscientes dessa deficiência. Esse resultado é bem generalizado, afetando mulheres casadas e solteiras, com alta ou baixa instrução. As autoras levantam a hipótese de que as mulheres aprendem sobre Finanças de uma maneira diferente dos homens, mas o fato é que ainda não há uma conclusão sobre porque as mulheres têm um nível inferior de literacia financeira.

Grau de escolaridade está positivamente relacionado com literacia e algumas habilidades como a numeracia também estão relacionados com literacia, mas habilidades cognitivas por si só não explicam a variação do nível de literacia entre as pessoas.

O nível de conhecimento financeiro dos pais e o fato deles investirem em ações influenciam o nível de literacia dos filhos. Pessoas vivendo nas cidades possuem maior conhecimento financeiro do que os que moram no campo. Ou seja, família e comunidade também são fatores que influenciam o conhecimento financeiro das pessoas.

Desconhecimento sobre conceitos básicos de Finanças é bem disseminado, mas está concentrado em alguns grupos demográficos (pobres, mulheres, idosos, principalmente). E esse é um tema importante porque traz consequências econômicas. Com base em evidências mais robustas (não meras correlações), sabemos que a literacia financeira está positivamente relacionada com o investimento em ações e com a poupança por motivos de precaução, além do planejamento da aposentadoria. Pessoas com menos conhecimento financeiros estão mais sujeitas a contratarem hipotecas mais caras, a se endividarem mais (e a custos maiores), usarem errado o cartão de crédito e poupar menos. Em todos esses casos, o conhecimento financeiro possui um papel importante distinto da educação geral.

A ignorância financeira tem custos. Como pessoas com baixa literacia financeira investem menos, principalmente em ações, isso leva ao aumento na desigualdade. Mesmo que invistam, essas pessoas ignoram os custos das aplicações, acabando por pagar elevadas taxas de administração. Literacia financeira é importante também na aposentadoria, pessoas com mais conhecimento financeiro não apenas se planejando melhor, mas também investindo em produtos com menores custos.

A respeito de programas de educação financeira, as autoras fazem mais alertas do que revisão das evidências. Primeiro, programas curtos ou breves exposições a aulas sobre conceitos financeiros podem não ser o suficiente para mudar o comportamento financeiro das pessoas. Segundo que o ideal seria ter diferentes programas de educação financeira, uma solução única sendo ineficaz para se comunicar com públicos diferentes com necessidades financeiras diferentes. Por isso, iniciativas de educação financeira segregadas para jovens, mulheres, idosos e trabalhadores podem ser o melhor caminho, não apenas pelo estilo de comunicação, mas também por enfoques diferentes. No fim das contas, ainda não se pode afirmar muito sobre o real impacto dos programas de educação financeira no comportamento dos alunos.

Resumindo, a pesquisa empírica sobre o tema mostrou o baixo nível do conhecimento financeiro em diversos países e que a literacia financeira influencia de forma positiva a vida das pessoas em diversos aspectos econômicos. Porém, não está tão claro como aumentar o conhecimento econômico, uma vez que as pesquisas sobre o assunto não são conclusivas e faltam chegar no ponto da relação custo-benefício. Como um campo de estudos, há ainda muito a ser estudado. No Brasil, desconheço uma pesquisa abrangente sobre a literacia financeira.

Annamaria Lusardi e Olivia Mitchell.

Journal of Economic Literature. Volume 52. Ed. 1. 2014

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Consequências psicológicas do dinheiro

Psicologia do Dinheiro

Nas ciências, na filosofia e nos ditados populares, o dinheiro já foi visto pelos mais diversos pontos de vista, tanto positivos quanto negativos. 


No artigo The Psychological Consequences of Money publicado na revista Science os autores realizam uma série de experimentos e concluem que o dinheiro faz as pessoas se sentirem autossuficientes e leva as pessoas a agirem de acordo com isso. Dinheiro levaria as pessoas a conseguir atingir os seus objetivos sem a ajuda de outros.

Nesses testes, examinadores trabalharam com o “conceito” de dinheiro e não com propriedades ou posses, procurando estimular inconscientemente a noção de dinheiro e examinar seus efeitos nos participantes. O objetivo era relacionar o estímulo “monetário” com atitudes na direção de agir por conta própria, seguindo a hipótese inicial do estudo. Contrariamente, falta de dinheiro deveria fazer com que as pessoas se sentissem ineficazes.

No primeiro teste, os participantes desempenhavam inicialmente uma tarefa de desembaralhar palavras, alguns resolvendo o problema com palavras neutras (não relacionadas com dinheiro) e outros com palavras que remetem a dinheiro. Em seguida, participaram da resolução de outro quebra-cabeça. Aqueles que tiveram o estímulo relacionado a dinheiro demoraram mais para pedir ajuda.

No experimento 2, os examinadores testaram manipular os estímulos positivos (abundância de dinheiro) e negativos (falta de dinheiro). Em seguida, submeteram os participantes a um desafio insolúvel sem ajuda e aqueles que receberam os estímulos positivos foram os que mais demoraram a pedir ajuda.

O terceiro teste verificou agora a disposição para ajudar. Primeiro, passaram pelo primeiro desafio assim como no experimento 1. Depois, uma pessoa pede ajuda para o participante para decodificar uma planilha de dados, deixando a critério do participante decidir em quantas planilhas irá ajudar. Aqueles que receberam o estímulo em torno do dinheiro se voluntariaram menos do que o grupo de controle.

O experimento 4 utilizou novamente as tarefas para oferecer o estímulo e depois colocou os participantes para preencher questionários irrelevantes. Um auxiliar dos examinadores aparecia e resolvia uma tarefa, em seguida pedindo ajuda para o participante e o tempo gasto no auxílio era a variável de interesse. Aqueles que receberam o estímulo em direção ao dinheiro foram menos prestativos.

O quinto experimento verificou se a ajuda nas demais situações tinha a ver com habilidades, a ajuda exigida sendo a de meramente recolher lápis caídos. O estímulo foi diferente, com os participantes jogando Banco Imobiliário por alguns minutos e depois dando muito, pouco ou nada de dinheiro de Banco Imobiliário para o participante. Em um segundo passo, os participantes que receberam bastante dinheiro tiveram que pensar em um futuro abundante em termos financeiros, os que receberam menos em um futuro financeiramente ruim e os que nada receberam (que agiam como controle) em planos para o futuro. No fim, um auxiliar simulava um acidente deixando cair vários lápis e o participante ajudava a recolhê-los. Consistente com os demais testes, os que receberam o estímulo monetário positivo ajudaram menos do que os que receberam estímulo negativo ou o grupo de controle.

O sexto teste envolveu caridade. No início, foram dados 2 dólares em moedas de 25 cents para cada participante. Em seguida, participaram de um teste parecido com o 1, terminando com o preenchimento de um questionário que supostamente deveria ser o teste de verdade. No final, foram pedidas doações para a universidade. Aqueles que receberam o estímulo em torno do dinheiro doaram menos do que o grupo de controle.

Por fim, os últimos testes examinaram outras questões relacionadas com a “autossuficiência”. No teste 7, o estímulo agora era ver um descanso de tela (vulgo, screensave) com ou sem estímulo relacionado a dinheiro. No final, foi pedido para que o participante se aproximasse de outro para conversar um pouco e a variável dependente era a distância entre as cadeiras. Aqueles que receberam o estímulo relacionado a dinheiro ficavam em média mais distante do que o grupo de estímulo neutro ou de controle.

O teste 8 foi parecido com o 7 e no final foi passado um questionário com diversas atividades que podiam ser desempenhadas sozinhas ou em grupo. Aqueles que receberam o estímulo relacionado a dinheiro (um pôster com vários tipos de moedas) optaram mais pelas atividades solitárias. Por fim, o teste 9, que teve os mesmos tipos de estímulos do 7, pediu para que os participantes optassem por trabalhar sozinhos ou em grupo na elaboração de um anúncio. Assim como os demais testes, aqueles que receberam o estímulo relacionado a dinheiro optaram mais por trabalhar sozinhos.

Em todos os testes, a diferença entre o estímulo neutro ou nenhum estímulo era estatisticamente nula, indicando que o efeito está isolado na lembrança de dinheiro, em especial lembrança positiva.


Esse estudo indica que pensar em dinheiro faz a pessoa se sentir mais autossuficiente, diminuindo o senso de comunidade, ajudando menos os outros, mas também pedindo menos ajuda. Sem entrar em juízos de valor, esse artigo tem implicações para Marketing (área de estudo de alguns dos autores), em especial para instituições financeiras, que poderiam pensar em como esse senso de autossuficiência pode ser explorado em sua comunicação com o cliente.

Fonte da imagem: Mark Morgan no Flickr.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Risco e Perfil do Investidor

Em um artigo publicado há algumas semanas no Wall Street Journal, Jason Zweig (que fez os comentários na edição brasileira do Investidor Inteligente de Graham) escreveu um artigo sobre o perfil do investidor e como é difícil criar um questionário que reflita a disposição a correr riscos.

Além das dificuldades inerentes a qualquer questionário e por sua abordagem estreita, há uma infinidade de fatores que afetam o perfil do investidor que não são nem cogitados de entrar nos questionários. Isso se deve à falta de um consenso sobre o assunto, mas mostra que, por mais importante que seja, até para criar uma abordagem o menos enviesada possível, a Análise do Perfil do Investidor (API) tem as suas falhas.

Abaixo, os trabalhos citados por Zweig. Espero ler alguns desses artigos e comentar no blog:

A portrait of the individual investor (como não vi esse antes?)
Kicking the Habit (esse, infelizmente, é bem restrito)
The Cultures of Risk Tolerance (parece interessante)

Uma bela lista preparada pelo articulista!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Educação Financeira nas escolas funciona


Nesse texto, vou começar uma reformulação no blog, com textos mais curtos e, por consequência, menos profundos. Vou aqui comentar uma reportagem e nos próximos dias pretendo fazer comentários mais rápidos de alguns artigos científicos (podendo fazer alguns comentários mais longos como fazia antes) e as resenhas de livros serão capítulo a capítulo (como já era feito anteriormente, mas em um único e não raras vezes enorme texto).

***
Uma ideia que é muito defendida (ver aqui e aqui para dois exemplos) como solução para os problemas financeiros que afligem os adultos. Minha opinião (nunca expressa antes) é que ensinar educação financeira nas escolas é algo positivo, assim como contabilidade, economia, direito, educação sexual, educação emocional, cálculo numérico, primeiros socorros, planejamento de carreira, psicologia, filosofia, sociologia, religião, escotismo, astronomia, astrologia, ufologia, anatomia, engenharia, mecatrônica, design gráfico, programação, natação, judô, dança, canto, inglês, espanhol, francês, italiano, mandarim... a lista poderia seguir infinitamente. Se fossemos ensinar para as crianças as pessoas julgam necessário, as escolas virariam campos de concentração com estudos forçados e duraria uns vinte anos. Sendo assim, é necessário priorizar os temas mais importantes. E a prioridade política não se daria pelo que é mais ou menos urgente para as crianças, e sim de acordo com os grupos de pressão, e o fato da educação financeira ainda não ser obrigatória mostra que o grupo de pressão com interesses nessa pauta é fraco.

Na minha opinião: 1) Educação é importante demais para ser deixada para o governo; 2) Cabe aos pais decidirem o que é mais ou menos importante para seus filhos.

Deixando isso de lado, uma reportagem da The Economist da semana passada trata do tema da literacia financeira e o resultado prático da implementação de programas de ensino nas escolas. Um dos artigos mencionados pela reportagem conclui que “Unfortunately, we do not find conclusive evidence that, in general, financial education programmes do lead to greater financial knowledge and ultimately to better financial behaviour.”

Os problemas associados ao assunto são vários. Talvez a hora em que as aulas são ministradas seja errada, o mais adequado seja ensinar quando o tema for mais relevante. Quando a iniciativa é voluntária e gratuita, há o problema do aluno mais interessado no assunto ser justamente as crianças que não precisariam aprender sobre isso. Há também o problema de ser necessário primeiro de tudo entender matemática básica, o que a maioria das crianças e adultos não conseguem.

A reportagem cita vários estudos e eu vou colocar a referência abaixo, com alguns acréscimos meus. No futuro, vou ler alguns desses artigos no futuro. Como uma mudança no estilo do blog, ao invés de um texto sobre vários artigos comentados em detalhes (como faria antigamente), um texto para cada artigo com menos detalhes.


Lauren E. Willis é uma das grandes “céticas” da educação financeira Annamaria Lusardi uma das grandes proponentes e na página do SSRN há vários textos sobre o assunto.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Hipótese do ciclo de vida de Modigliani

(Franco Modigliani and the Life Cycle Theory of Consumption)
Angus Deaton. 2005

Mais conhecido pelos teoremas de irrelevância da estrutura de capital e da irrelevância da política de dividendos, Franco Modigliani não ganhou o Nobel apenas por essas suas contribuições, e talvez nem principalmente por isso (ou Merton Miller teria ganho o Nobel junto com Modigliani, e não em 1990 junto com Sharpe e Markowitz), e sim pela hipótese do ciclo de vida (vamos abreviar como HCV). A teoria desenvolvida inicialmente em Modigliani e Brumberg (1954) é bastante simples: as pessoas poupam nas fases inciais da vida para suavizar o consumo ao longo do ciclo de vida e ter dinheiro para manter o padrão de vida na aposentadoria. Como argumenta Angus Deaton, apesar de simples, essa ideia resulta em diversos desdobramentos não triviais, como a explicação das taxas de poupança e como variam de acordo com variáveis demográficas e econômicas.

Deaton começa o texto mostrando como a HCV não é tão trivial e óbvia quanto parece a sua formulação. Uma implicação da HCV é que quando as pessoas se aposentam elas vendem seus ativos, que devem ser comprados pelos mais jovens, que ainda estão na fase de acumulação. Outro fator a ser considerado é o crescimento, tanto da população quanto das rendas. O crescimento populacional indica que há mais jovens (acumulando patrimônio) do que velhos (desfazendo-se do patrimônio), gerando poupança líquida positiva. O mesmo ocorre se houver um aumento na renda. Se isso ocorrer, o mais importante não é o nível de renda, apenas a sua taxa de crescimento, já que novas riquezas serão criadas e não apenas passadas de geração para geração. E também haveria uma relação entre a riqueza e duração da aposentadoria, a razão entre patrimônio e renda devendo ser metade da duração média da aposentadoria (não sei qual a fonte dessa informação de Deaton).

Diversas teorias sobre consumo e poupança foram criadas, principalmente a partir da Teoria Geral de Keynes. Muitos trabalhos empíricos foram publicados gerando diversos fatos estilizados, mas faltava algo para juntar esses estudos. A HCV é consistente com a teoria da escolha do consumidor e resiste a diversos testes da época. Uma primeira crítica que poderia ser feita é que a taxa de poupança geralmente acompanha o crescimento de renda, de forma que pessoas com maior renda tendem a também poupar mais, contrariamente ao que seria de se esperar inicialmente. Porém, o que se observa é que parte do aumento de renda é transitório de forma que a maior taxa de poupança também é transitória. No nível macro, a taxa de poupança agregada deveria ser constante ao longo do tempo, mas variará de acordo com o ciclo de negócios.

Diversas críticas à HCV foram feitas ao longo do tempo. Das injustas, segundo Deaton, estão a de que essa é uma “teoria dos solteiros” (o fato da pessoa ter filhos não muda significativamente a teoria e a inclusão desse fator mais confunde do que explica) e que as pessoas deixam de considerar alguns rendimentos como “renda” nas pesquisas (o que na verdade cria um viés contra a HCV). Afora essas críticas imprecisas, outras foram formuladas. Incertezas quanto à longevidade e desejo por deixar um legado intencionalmente mudam a importância da HCV na explicação do comportamento das pessoas (mas não se sabe a magnitude dessa modificação). James Tobin imagina o cenário em que a pessoa suavizaria o consumo contraindo dívidas no começo e venderia ativos no final da vida, da forma que haveria consumo de poupança no começo e no fim do ciclo e talvez até haja relação negativa entre crescimento e taxa de poupança. Modigliani credita como pouco plausível esse comportamento.

A HCV gera várias previsões teóricas que precisam ser testadas com dados empíricos para se constatar a sua validade. Demorou para ser possível reunir dados suficientes sobre os países para testar as previsões da relação entre taxa de poupança, demografia e renda. Em artigo de 1992, Modigliani constatou a relação entre crescimento e demografia com a a taxa de poupança, com pouca influência do nível de renda. Testes foram feitos sobre a relação entre demografia e taxa de poupança, com evidências anômalas ao que seria de se esperar da HCV. Observa-se ainda relação entre crescimento e poupança, mas é difícil estabelecer causalidade. Precaução por conta da incerteza de rendas e taxas de retorno é outro motivo para investir além de preocupações com ciclo de vida traz maior complexidade para a questão, mas não chega a ser incoerente com a HCV e até é uma explicação adicional para o fato das pessoas não quererem suavizar o consumo aumentando o endividamento no começo da vida.

Outro desafio da HCV vem da Economia Comportamental. A primeira observação (extensível para outros assuntos), é que a Economia Comportamental encontra diversas anomalias em teorias alheias, mas de forma geral não consegue reunir seus achados em uma teoria unificada para explicar os fatos que procura examinar. Contribui enormente para o debate, mas não oferece um modelo alternativo (na maioria dos casos). Como escreve Deaton, economistas têm o receio de que se a maximização de utilidade for abandonada, então tudo será possível. Mais concretamente na HCV, a questão do desconto hiperbólico faz com que as pessoas prorroguem começar a poupar, contrariamente ao que a HCV prevê. Além disso, a HCV mostra o que as pessoas fariam se tivessem interessadas no seu bem-estar, mas nem sempre as pessoas agem da melhor maneira para seu próprio bem. Talvez a economia comportamental venha a comprovar que as pessoas não agem conforme o prescrito na HCV, mas, como em outros tópicos, isso só invalida a HCV como uma teoria positiva, mas não como teoria normativa.

Esse é um resumo do resumo das ideias de Modigliani para o que seria seu aniversário de 94 anos. Quem sabe no ano que vem faço algo melhor, sem atraso e sem improviso.
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Fonte da imagem: Umofomia via Wikiédia

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Subversificação por pessoas físicas

William N. Goetzmann e Alok Kumar
Review of Finance. Volume 12. Edição 3. 2008

Já havia tratado anteriormente do tema da subdiversificação, a manutenção de carteiras menos diversificadas do que a maximização média-variância sugeriria. Uma das referências foi esse artigo de Goetzmann e Kumar e a base de dados foi a mesma nos dois estudos, quase 78 mil investidores pessoa física nos Estados Unidos no período entre 1991 e 1996. No artigo, os autores examinam o grau de diversificação dos investidores e quais os fatores que determinam essa decisão.

São utilizadas três medidas de diversificação: 1) Variância normalizada (variância da carteira de um investidor dividido pela variância média das ações da carteira); 2) Soma do quadrado dos pesos porcentuais; 3) Simplesmente o número de ações na carteira. O investidor médio possui quatro ações (3 na mediana), com valor médio de US$ 35,6 mil (e mediano de 13,9 mil). Quase 50% dos investidores possuem apenas uma ou duas ações e, não surpreendentemente, a variância da carteira cai com o aumento no número de ações. A correlação média entre os ativos que compõem a carteira não varia muito com o número de ações, de forma que o nível de correlação varia, mas não a habilidade nessa prática (os investidores não escolhem ações pouco correlacionadas entre si, o que aumentaria o poder da diversificação).

Os autores comparam o desempenho da carteira dos investidores com outras referências. A primeira comparação é feita com a carteira de mercado (S&P 500) através da Capital Market Line (CML). Uma minoria dos investidores consegue desempenho que os situe acima da CML, ou seja, obtêm retornos que mais do que compensem o risco assumido. Isso se deve muito à pobre diversificação (que é o tema do artigo, não tanto o retorno da carteira), as carteiras dos investidores tendo maior risco (maior variância normalizada) do que uma carteira com mesmo número de ações construída aleatoriamente, e a diferença sendo maior para carteiras com mais ações (indicando baixa habilidade em diversificar).

A próxima análise é a mudança do comportamento dos investidores ao longo do tempo. O número médio de ações aumenta e a variância da carteira cai no espaço de 5 anos. Porém, isso se deve mais à queda generalizada da variância dos preços e nas correlações do que em um aumento na habilidade dos investidores, de forma que as duas variáveis caem menos do que seria de se esperar, conforme os cálculos dos autores. A variância da carteira dos investidores fica ainda maior em 1996 do que era em 1991 na comparação com o mercado como um todo. A correlação média até que fica menor na comparação com o mercado, mas continua muito elevada. Ou seja, o comportamento dos investidores muda, mas não há um aumento na habilidade. A subdiversificação é maior para contas de aposentadoria (IRA ou Keogh), que representam por volta de 42% da amostra, o número médio de ações sendo menor e a variância maior.

Uma crítica que poderia ser feita é que as contas analisadas são de “play money”, recursos que alguns investidores depositam para investir em ações “só para brincar”. Segundo os autores, isso é improvável porque um grande número das contas é para fins de aposentadoria (como apontado) e porque os recursos dessas contas representam boa parte da renda e do patrimônio dos investidores.

Com isso, estabelece-se que os investidores analisados além de pouco diversificados não sabem como selecionar ações para potencializar a redução no risco. Os autores passam a examinar quais fatores determinam o grau de diversificação dos investidores. O tamanho da carteira não parece ser um fator relevante, já que investidores com carteiras muito pequenas (menor de US$ 5.830) e de tamanho médio (entre US$ 5.830 e US$ 10.560) mantêm em carteira por volta de cinco ações. Investidores menos diversificados operam com grande frequência, de forma que custos de transação elevados não são um impeditivo para a diversificação (se fosse, esses investidores não transacionariam tanto).

Outros resultados: Investidores mais velhos e com maior renda são mais diversificados. Investidores que ocupam cargos técnicos ou gerenciais são mais diversificados do que trabalhadores de outros tipos, mas menos do que aposentados. O próximo grupo de variáveis diz respeito à sofisticação dos investidores, definidos como aqueles que realizam vendas a descoberto e operam opções, a diversificação desses investidores sendo maior. Investidores que compram ações de empresas estrangeiras e investem em fundos de investimento (ou seja, diversificam mais) possuem carteiras de ações mais diversificadas. Por fim, o grau de diversificação aumenta com a experiência. Voltando um pouco para a questão da habilidade, o efeito da diversificação é maior para os investidores que aplicam em ativos estrangeiros, enquanto que é menor para os investidores que concentram os investimentos em empresas do mesmo setor. Ou seja, aqueles que entendem melhor os benefícios diversificam mais, ao contrário daqueles que não parecem compreender muito bem como a diversificação funciona.

É possível que a diversificação seja influenciada por fatores comportamentais. Investidores mais confiantes (aqueles que mais giram a carteira), com mais viés local (investindo mais em ações de empresas com sede próximas do investidor) e que seguem mais a tendência do mercado são menos diversificados. Os investidores menos propensos a realizar perdas (ou seja, que sofrem mais do “efeito disposição”) são mais diversificados, provavelmente os investidores realizando investimento em outras ações enquanto que esperam os investimentos perdedores se recuperarem (se for assim, os investidores não tentam recuperar o investimento abaixando o custo médio).

Após isso, a próxima etapa é examinar as características das ações que os investidores mais e menos diversificados compram através de regressões Fama-Macbeth (1973). Examinando apenas as relações significativas, os investidores menos diversificados compram ações com maior obliquidade (o que se examinaria com mais detalhes no futuro) e mais arriscadas, tanto em termos de volatilidade quanto de beta. Ademais, as ações são de empresas menores, de preços baixos e de maior relação Preço/Valor Patrimonial. É menos provável que essas ações sejam de empresas que paguem dividendos e o giro mensal das ações é maior.

Foi estabelecido que os investidores pessoa física são pouco diversificados e foram identificados alguns detalhes desse comportamento. Os autores terminam o artigo examinando quais os custos econômicos disso em termos de retornos relativos ao mercado e de Índice de Sharpe. Separando os investidores em decis de grau de diversificação (em termos de variância normalizada), tanto os retornos quanto o Índice aumentam junto com a diversificação. Como era se esperar, dentre os investidores menos diversificados, há desempenhos extremos para um grupo pequeno de investidores, a diferença entre os 10% piores e os 10% melhores sendo maior entre os investidores menos diversificados. O mais interessante é que os 10% de melhor desempenho dentre os menos diversificados são os que obtêm o melhor desempenho dentre todos os grupos.

É possível aprofundar essa questão analisando o desempenho dos investidores qualificados em termos de diversificação e também de características do investidor como idade, renda, emprego e giro da carteira. A variável de interesse é o diferencial entre os investidores mais e menos diversificados em cada classificação, definidos como o quintil superior e inferior de variância normalizada. Separando por idade, a diferença de desempenho é estatisticamente nula para menores de 45, baixa e marginalmente significativa entre 45 e 65 e maior e significativa para investidores mais velhos. Renda não parece ser um critério muito significativo, mas dentre os investidores de menor renda os mais diversificados obtiveram desempenho um pouco maior. O resultado mais interessante surge quando os investidores são classificados em termos de giro da carteira. O diferencial de desempenho é maior dentre os que operam menos ou medianamente, os mais diversificados obtendo melhores resultados. Porém, dentre os investidores com maior giro ocorre o contrário, os investidores mais ativos e menos diversificados superando o desempenho dos mais ativos e mais diversificados.

Em resumo, os investidores pessoa física são pouco diversificados e não sabem diversificar muito bem. Investidores mais velhos, com maior renda e que realizam outras operações além da compra e venda de ações são mais diversificados. Investidores menos diversificados preferem ações mais arriscadas. Esse comportamento possui um custo econômico, os investidores menos diversificados obtendo desempenho pior.

Isso tudo depõe a favor da diversificação. Um resultado da pesquisa destoa um pouco, uma minoria dos que menos diversificam obtendo um desempenho excepcional e os que mais giram a carteira e são menos diversificados superando os que mais giram e são mais diversificados. Se o investidor acredita que possui alguma habilidade para ganhar dinheiro no mercado, a diversificação pode ser prejudicial. Não faz sentido realizar alguns investimentos quando há outros que parecem ser melhores; o lado negativo é que é muito difícil distinguir um investimento bom de um ruim, como evidenciado em vários estudos, como aqueles sobre desempenho de fundos, e um número muito grande de investidores pensa ter habilidade superior.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Presentes: Dê o que as pessoas pedem

Francesca Gino e Francis J. Flynn
Journal of Experimental Social Psychology. Volume 47. 2011

O artigo estudou o processo de presentear as pessoas, o que responde por 4% do orçamento das famílias nos Estados Unidos, segundo as referências dos autores. Já escrevi sobre um artigo a respeito do peso morto dos presentes, onde as pessoas recebem presentes que valem menos do que custou ao presenteador e esse artigo retoma a questão.

Muitas vezes, as pessoas preferem escolher o que dar de presente ao invés de seguir sugestões de quem será presenteado. Afinal, troca de presentes é um "processo de troca social, repleto de significado simbólico e sutilezas interpessoais" e seguir a sugestão do presenteado pode dar a intenção de que o presenteador não conhece muito bem o presenteado ou que não deseja gastar tempo e esforço nesse processo, de forma que o presente passe a aparentar ser algo impessoal ao invés de um sinal de compromisso com a relação com a pessoas. Talvez o presente não venha a ser grande coisa, mas ao menos a pessoa teve o cuidado de pensar no que o outro gostaria de receber, tornando o presente mais pessoal e significativo.

Como diria um comentarista de esportes americanos, chega! Na decisão sobre o que escolher, as pessoas tendem a focar em seus próprios pontos de vista, tentar adivinhar o que a pessoa gostaria de receber e superestimam a extensão que o presenteado compartilhará seu ponto de vista. Dessa forma, seguir sugestões talvez seja a "estratégia ótima"para minimizar o peso morto. É o que as pesquisas do artigo procuram analisar.

O primeiro estudo é sobre presentes de casamento. 198 pessoas casadas participam da pesquisa sobre receber ou dar presentes de casamento pedidos (como nas tradicionais listas de casamento) ou não pedidos, de forma que a pessoa poderia estar em uma de quatro situações na matriz papel x tipo de presente (receber ou dar x presente requisitado ou não requisitado). A resposta é baseada em uma experiência passada do respondente, onde a pessoa deu ou recebeu um presente da lista (requisitado) ou de fora (não requisitado), e foi perguntado em uma escala de 1 a 7 quanto a pessoa gostou do presente ou acha que o recebedor gostou. Os resultados indicam que presentes requisitados foram mais bem avaliados, que os presenteadores não avaliam diferentemente presentes requisitados e não requisitados, mas que os presenteados avaliam de maneira diferente em favor dos presentes que haviam pedido. Preço e o relacionamento com a pessoa que recebe ou que dá o presente aumentam a avaliação do presente, mas não alteram os resultados.

No segundo estudo, relativo a presentes de aniversário, usando a mesma metodologia, com 140 respondentes casados ou que estão em um relacionamento sério, os resultados foram um pouco diferentes em alguns pontos. Presentes requisitados não foram melhor avaliados somando os dois papéis (presentear ou ser presenteado), mas, como no estudo 1, os presenteadores não avaliaram diferente os presentes, mas os presenteados sim preferindo presentes requisitados.

O terceiro estudo envolveu wishlists da Amazon. 90 respondentes foram escolhidos para um dos papéis. Os presenteados criam uma lista de desejos e envia aos pesquisadores. O presenteador então deve ou escolher um dos presentes da lista ou analisar a lista e escolher um presente de fora da lista (o que cada um fará é determinado pelos pesquisadores). 10 dos presenteados são sorteados e ganham o presente escolhido, de forma que essa é uma pesquisa com um grau a mais de realismo (envolve além de uma modesta quantia de dinheiro, um presente de verdade). Após essas etapas, os respondentes foram questionados sobre o que acharam da escolha em termos de apreciação, consideração (thoughtfulness) e o grau de impessoalidade e a motivação do presenteador (maximizar a própria satisfação ou a de quem recebe). Como os outros estudos indicam, a satisfação prevista pelos presenteadores não varia com o tipo, mas a satisfação dos presenteados sim. Ainda, presenteados consideraram o presente requisitado mais atencioso e mais pessoal do que o presente não requisitado, os presenteadores não vendo diferença.

As duas últimas pesquisas envolvem condições limites. No quarto estudo, é analisada a situação em que quem vai receber declara seu desejo por receber um presente específico, e não uma lista de possíveis presentes. A metodologia é a mesma dos demais estudos, envolvendo 200 respondentes. Com a eleição de um presente específico, a satisfação prevista pelo presenteador é maior e os presentes requisitados resultam em maior satisfação. Para lista múltipla, há o mesmo efeito e ainda quem presenteia não vê diferença entre presentes requisitados e não requisitados, mas quem recebe vê diferença e prefere aqueles que constam de sua lista. Os resultados são parecidos analisando a consideração do presenteado, quem recebe o presente achando que o presenteador teve maior consideração por ele caso tenha dado um presente da lista.

A condição limite do quinto experimento foi entre dar um presente da lista ou dinheiro. Os resultados mostraram que o presenteador atribuiu maior satisfação prevista do que a real satisfação de quem recebe. O principal resultado é que os presenteadores achavam que quem recebe iria gostar mais do presente, porém, os presenteados acabaram preferindo receber em dinheiro. Os presenteadores acreditavam que os presenteados iriam considerar o presente em itens mais atencioso, porém os que receberam acharam o contrário.

Uma conclusão geral é a de que quem vai dar presentes acaba sendo excessivamente otimista em relação à satisfação esperada de sua escolha e que não veem muita diferença entre presente pedido ou não pedido em termos de satisfação e de consideração, mas quem recebe o presente prefere receber aquilo que já tinha declarado querer receber. Ainda, o quinto estudo indica que as pessoas preferem receber em dinheiro acima até de presentes que pediram.

A dica prática passa a ser de que, tendo uma dica, o melhor mesmo é dar um presente que a pessoa tenha pedido. Sempre há a chance de haver surpresas positivas, mas parece haver uma tendência para superestimarmos a nossa capacidade de saber o que a outra pessoa deseja. Presente em dinheiro parece uma boa, como atesta também essa notícia, e pode ser um pouco mais pessoal com os vale-presentes (gift cards). Só que não é em toda situação que isso funciona.

Por fim, o artigo não tratou de uma questão: não seria a troca de presentes um jogo de soma zero? Uma pessoa dá um presente de determinado valor e recebe outro de valor semelhante, só havendo um ganho para uma das partes quando a outra morre, o que não parece fazer muito sentido. Bom, mas isso é uma convenção social não opcional.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Taxa de desconto subjetiva em dívidas pessoais

Pagar o total da fatura do cartão de crédito provavelmente está entre os conselhos mais difundidos de especialistas de Finanças Pessoais e pagar o mínimo da fatura é citado como uma das piores coisas que uma pessoa pode fazer com suas próprias finanças.

Não discordo que contrair dívidas com cartão de crédito seja uma má ideia, e eu pessoalmente sempre pago o total da fatura. Porém, acho que, como toda decisão de consumo e dívida, essa é uma decisão de cada pessoa, que depende de quanto a pessoa dá mais importância para consumo no curto prazo contra consumo no longo prazo. Não cabe ao conselheiro pessoal, na minha opinião, dizer à pessoa o que é melhor para ela, e sim mostrar à situação de um ponto de vista que a pessoa ignore.

Para discutir essa situação, considere a situação hipotética: uma pessoa tem R$ 1 mil para consumir naquilo que quiser (o que não signifique que ganhe R$ 1 mil, e sim que o restante da renda vai para outras destinações que não entram no problema proposto) e que gastará sempre no cartão de crédito. Pode optar por pagar a fatura total ou o mínimo (atualmente, 20%). O dinheiro “economizado” nessa segunda opção é revertido em mais consumo no mês seguinte. A parcela da fatura não paga é financiada com o crédito rotativo à taxa de 10,69% a.m. (ver aqui). O horizonte de tempo é de 12 meses, o pagamento máximo da fatura é de R$ 1 mil por mês (o mesmo valor que seria destinado a consumo) mais o valor que a pessoa tenha em conta corrente.

A tabela abaixo resume a situação de quem usa o crédito rotativo.


A farra do crédito e o consumo crescente, nessa situação, dura apenas até o quarto mês. No quinto mês, com fatura de R$ 6.563, a pessoa decide pagar o máximo que pode, seus R$ 1 mil mensais mais R$ 1.046 que tinha em conta. Passará o resto do ano (mais da metade) sem consumir (exceto um pequeno gasto no 7º mês) para poder pagar a fatura ao final do 12º mês. O total consumido é de R$ 8.551, contra R$ 12 mil se a pessoa não tivesse usado o crédito rotativo, ou 28,74% menos.

Conforme comentei em outras ocasiões, não é correto comparar valores em datas diferentes porque dinheiro tem valor no tempo. Certo, então devemos trazer os fluxos de caixa a valor presente. Um cálculo mais ilustrativo é calcular a taxa que igualaria o valor presente dessa série de consumo ao valor presente do fluxo contínuo de R$ 1 mil.

Essa taxa é 13,28% a.m., mas seu significado não é tão direto. O primeiro é que uma pessoa que tivesse R$ 5.842,82 (o valor presente dos dois fluxos) e pudesse aplicar a essa taxa estaria indiferente entre os dois fluxos, poderia seguir as duas alternativas de consumo sobrando zero no final. Mas como essa definitivamente não é uma taxa de aplicação, a interpretação não é válida.

Outra interpretação é a de que essa é a taxa de desconto subjetiva da pessoa que tornaria as duas situações equivalentes. Em outras palavras, se a pessoa for indiferente entre ter R$ 100 hoje ou R$ 113,28 daqui a um mês, então estaria indiferente entre as duas alternativas de consumo. Essa seria uma pessoa muito impaciente, considerando que a taxa de aplicação para alternativas de baixo risco passa muito longe disso. Se a pessoa for ainda mais impaciente, se trocasse R$ 100 apenas por valores superiores a R$ 113,28 então, na verdade, a opção por utilizar o crédito rotativo seria preferível.

Nesse caso, trazer a valor presente não é algo tão imprescindível. Se os bens comprados não sofrerem depreciação significativa, ou se o dinheiro foi gasto em bens de experiência, então é possível examinar a situação do seguinte ponto de vista: no quinto mês, a pessoa impaciente gastou R$ 8.254 (mais R$ 297 no sétimo mês) enquanto que a paciente gastou apenas R$ 5 mil. O impaciente ficou mais feliz* mais cedo e irá desfrutar de ter consumido mais até o nono mês. Porém, no final, a pessoa paciente terá consumido muito mais.

Há que se observar, porém, que uma situação real seria diferente desse exemplo simplificado. Uma pessoa impaciente talvez não fique seis meses sem gastar, provavelmente daria um jeito de continuar gastando ou simplesmente ignoraria a sua crescente dívida. Mas chegará uma hora que não será mais possível continuar aumentando a dívida e a pessoa vai ter que se preocupar (e muito!) em como pagar essa conta. Toda a satisfação extraída do consumo rápido vai ser mais do que superada pelo sofrimento na hora de consertar essa situação.

Retomando o segundo parágrafo, acho que a simples exposição desse exemplo servirá para dissuadir alguém a assumir dívida tão cara. Não me parece que um número grande de pessoas olhe para a tabela acima e considere se tratar de uma boa ideia.

Outra possibilidade de adiantar consumo seria contratar um empréstimo pessoal. A situação que servirá de exemplo será diferente. Suponha que a pessoa queira realizar um gasto de R$ 9.076,99, podendo optar por economizar por 12 meses aplicando à taxa de 0,6% a.m. ou contrair uma dívida ao custo de 4,58% a.m. com doze pagamentos mensais de R$ 1 mil (por isso, o valor de R$ 9.076,99). Tendo R$ 1 mil disponíveis nas duas alternativas, quem opta por esperar poderia ainda gastar R$ 272,59 já que precisa poupar apenas R$ 727,41 (poderia poupar R$ 1 mil e chegar aos R$ 9.076,99 mais cedo, mas a situação como está facilita a comparação).

A tabela resume as duas alternativas.


As duas primeiras colunas mostram o consumo nas duas alternativas e as duas últimas seus fluxos de caixa, positivo representando consumo e negativo poupança ou pagamento de prestação. No final, a pessoa impaciente (alternativa 2) irá consumir 26,49% menos do que a paciente, ou 21,72% menos a valor presente à taxa de 0,6% a.m. O impaciente irá desfrutar do que deseja comprar mais cedo, mas a pessoa mais paciente terá o mesmo gasto 12 meses depois e terá outros gastos ao longo dos doze meses. A taxa de desconto que iguala o valor presente das duas séries de consumo é 3% a.m. Se a pessoa acha que R$ 100 hoje vale tanto quanto R$ 103 daqui a um mês, estaria indiferente entre as duas séries e se exigir mais do que R$ 103 para abrir mão de R$ 100 hoje irá preferir a dívida.

O objetivo desse texto era frisar a questão essencial, que a decisão de endividamento pessoal se dá em termos de preferência por mais consumo no presente do que no futuro. As altas taxas de juros brasileiras, que, por um lado, tornam a poupança atrativa e, do outro, tornam a dívida menos atraente, deveriam ser um desincentivo a esse comportamento. Mas, independente desse fator, o endividamento pessoal, e mesmo baixa ou nula poupança, é algo que dificulta muito o enriquecimento. Assim como uma economia cresce aumentando a sua produtividade, o que exige investimentos na formação de capital, uma pessoa enriquece acumulando patrimônio através da poupança, com investimentos pessoais (educação, por exemplo) e com empreendedorismo (esse último sendo opcional).

* Suponha que dinheiro traga felicidade, algo fora de análise nesse momento.
*Toda essa discussão se refere ao endividamento para fins de aumentar o consumo. O que chamei de investimentos pessoais não entra nessa lógica, e sim na mesma das Finanças Corporativas, a dívida sendo boa se a taxa de retorno superar o custo de capital.