terça-feira, 31 de março de 2009

Os maiores prejuízos

Os maiores prejuízos de empresas que hoje são de capital aberto de 1995 até os dias de hoje. Os números são reajustados pelo IGP-DI da seguinte forma:

Prejuízo (valores de hoje) = (Índice em Dez-08/Índice no final do ano)*Prejuízo

Sem ajustar, o prejuízo da Aracruz foi o terceiro maior, atrás dos dois prejuízos do Banco do Brasil em 1995 e 1996.

Siderúrgicas


Os dados financeiros e de mercado que estavam faltando nos perfis de Gerdau e Usiminas, junto com os da CSN.

Dados Financeiros


Lucro da CSN em 2008:
(A) Lucro conforme divulgado: R$ 5.716.938 mil
O Lucro de 2008 usado é antes dos ajustes do IFRS.
(B)Ganho com venda da Namisa= R$4.043.559 mil
(C) Ganho com venda da Namisa sem IR: (B)*0,66 = R$2.668.748 mil
(A)-(C) = R$3.048.189 mil

Curiosidade: Se a Gerdau nunca teve prejuízo, CSN e Usiminas não podem dizer o mesmo. Na época de estatais, tiveram diversos prejuízos: CSN (78,80,82,83,86-89) e Usiminas (75,78,81,83,86). (Fonte: Melhores e Maiores da Revista Exame). Após privatizadas, só tiveram prejuízo em 2002 por conta da apreciação do dólar.

Indicadores de Mercado



Matriz de Correlações

domingo, 29 de março de 2009

Metal Leve


Dados da empresa
Sede:
Avenida Ernst Mahle 2000 (Mogi-guaçu– SP).
Fundação: 03/03/1950
Listagem: 05/08/1971
Presidente do Conselho de Administração: Peter Paul Wilhelm Grunow (59 anos, administrador e economista formado pela Universidade de Frankfurt).
Diretor-Presidente: Claus Hoppen (53 anos, administrador formado pela IFRGS, é conselheiro da companhia).
Diretor de Relações com Investidores: Axel Erhard Brod (51 anos, administrador formado pela Faculdade de Saarbrücken, com mestrado em Finanças pela PUC/RJ, é também diretor vice-presidente).
Auditoria: BDO Trevisan
Comitês de Governança: Conselho Fiscal, Comitê de Comunicação.
Atividade (segundo Notas Explicativas):
A Companhia tem como atividade preponderante a pesquisa, desenvolvimento, fabricação e a comercialização, no país e no exterior, de peças e acessórios para motores de combustão interna, cuja venda é efetuada a diversas indústrias e ramos de atividades, tais como montadoras (automóveis, caminhões, tratores etc.), mercado de peças de reposição, indústria de motores para aviação, estacionários e outros.
Os produtos fabricados pela Companhia são: pistões, pinos de pistão, eixos de comando de válvulas, bronzinas, buchas, tuchos de válvula, balancins, bielas, porta-anéis, guias e sedes de válvula, camisas de cilindro e filtros.
Outras atividades são desenvolvidas por intermédio de empresas controladas, que incluem a produção de peças de metal sinterizado e válvulas para motores de combustão, bem como a comercialização de produtos e a prestação de assistência técnica no mercado internacional.
Site de RI

Dados das ações
Código: LEVE3 e LEVE4
Segmento de listagem na Bovespa: Tradicional
Ibovespa: Entrou em Jan/72 e saiu em mai/95
Tag Along: Não oferece
Maior acionista: Mahle (83,16%)
Ações em circulação: 0,19% (ON) e 28,90% (PN)

Dados Financeiros
Crescimento da Receita (5 anos): 9,42% a.a.
Crescimento da Receita (1 ano): 13,86%
Crescimento do Lucro (5 anos): -18,76% a.a.
Crescimento do Lucro (1 ano): -41,36%
Retorno sobre Patrimônio Líquido (5 anos): 23,30%
Retorno sobre Patrimônio Líquido (2008): 13,94%
Dividendo/Lucro Líquido: 51,34%
Dívida/(Dívida + Patrimônio Líquido): 55,53%
Nenhum prejuízo nos últimos 10 anos

Indicadores de Mercado
Valor de Mercado: R$ 429.699.873
P/L: 6,90
P/VPA: 0,96
(Des)Valorização (base em Dez/08): -14,48%
(Des)Valorização (base Mar/08): -50,81%
Topo Histórico: 42,81541 (04/05/2007)
Desvio-padrão (60 meses): 8,77%
Desvio padrão Ibovespa (60 meses): 7,12%
Correlação com Ibovespa: 44,19%
Beta de regressão: 0,54

Curiosidade: A Metal Leve é tricampeã da “Melhores e Maiores” da Revista Exame, sendo capa em 1974, 1980 e 2003 (essa última já como Mahle Metal Leve). Se bem que se até Mesbla já vai escolhida a empresa do ano...

Embraer



Dados da empresa
Sede: Avenida Brigadeiro Faria Lima 2170 (São José dos Campos – SP).
Fundação: 1969
Privatização: 1994
Listagem: Ago/93
Presidente do Conselho de Administração: Maurício Botelho (Engenheiro Mecânico formado pela UFRJ).
Diretor-Presidente: Frederico Curado (45 anos, Engenheiro Mecânico formado pelo ITA)
Diretor de Relações com Investidores: Luiz Carlos Siqueira Aguiar
Auditoria: PricewaterhouseCoopers
Comitês de Governança: Conselho Fiscal.
Atividade (segundo Notas Explicativas):
A Embraer - Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A.(“Embraer” ou “Controladora”; de forma conjunta com suas controladas como “Consolidado” ou a “Companhia”), anteriormente Rio Han Empreendimentos e Participações S.A., é uma sociedade por ações, com sede na cidade de São José dos Campos, Estado de São Paulo, Brasil e tem como objetivo social o desenvolvimento, a produção e a comercialização de jatos e turboélices para aviação civil e de defesa, de aviões para uso agrícola, de partes estruturais, de sistemas mecânicos e hidráulicos e atividades técnicas vinculadas à produção e manutenção de material aeroespacial.
Site de RI

Dados das ações
Código: EMBR3
Outras Bolsas: NYSE (ERJ)
Segmento de listagem na Bovespa: Novo Mercado
Ibovespa: A ação PN entrou em Mai/00 e saiu após ser deslistada (para entrar no Novo Mercado) em 2006. A ação ON entrou pela primeira vez em Jan/00. Atualmente, é a 39ª mais líquida com 0,656% do índice.
Tag Along: 100%
Maior acionista: A Previ é um grande acionista (13,92%), mas é mais importante ressaltar os acionistas com ADRs (44,93% conforme IAN consultado no dia 29/03/2009).
Ações em circulação: 27,88% (ADR) e 20,40% (Bovespa).

Dados Financeiros
Crescimento da Receita (5 anos): 12,30% a.a. *
Crescimento da Receita (1 ano): 17,54% *
Crescimento do Lucro (5 anos): -16,56%a.a. *
Crescimento do Lucro (1 ano): -63,82% *
Retorno sobre Patrimônio Líquido (5 anos): 14,44%
Retorno sobre Patrimônio Líquido (2008): 7,18%
Dividendo/Lucro Líquido: 52,29%
Dívida/(Dívida + Patrimônio Líquido): 41,87%
Nenhum prejuízo nos últimos 10 anos

* Divergência entre o divulgado em 2007 sobre 2007 e o divulgado em 2008 sobre o ano passado, por conta da adoção do IFRS.

Indicadores de Mercado
Valor de Mercado: R$ 5.501.655.277
P/L: 12,83
P/VPA: 0,92
(Des)Valorização (base em Dez/08): -15,56%
(Des)Valorização (base Mar/08): -56,74%
Topo Histórico: 24,25066 (18/06/2007)
Desvio-padrão (60 meses): 10,03%
Desvio padrão Ibovespa (60 meses): 7,12%
Correlação com Ibovespa: 44,07%
Beta de regressão: 0,62

Curiosidade: A respeito das demissões. Na Demonstração de Valor Adicionado, o valor recebido pelos funcionários aumentou 39,18% (é o público que mais recebeu valor) e o valor recebido pelos acionistas caiu 62,64%. Muita gente deve achar isso exemplar. Se fosse o contrário, achariam um escândalo.

sexta-feira, 27 de março de 2009

10 maneiras de gerar valor para o acionista

(Alfred Rappaport – Harvard Business Review, Setembro 2006).

Virou moda culpar a geração do chamado valor para o acionista pelos males que afligem o mundo empresarial americano: gestores e investidores obcecados pelos resultados do próximo trimestre, falta de investimento no crescimento a longo prazo, até falcatruas contábeis que vieram a público. Quando destrói valor que deveria estar criando, um executivo quase sempre diz que agiu movido pela pressão do mercado acionário.

O parágrafo acima é o primeiro parágrafo do artigo em questão, que pode se encaixar com perfeição na situação atual. Muitas das recomendações que o autor faz, se cumpridas, poderiam ter eliminado o componente “remuneração variável” da atual crise.

O autor começa desmontando um argumento a favor da orientação de curto prazo. Um argumento é que os investidores de hoje são de curto prazo e agem como tal. Não importa qual é o prazo médio de manutenção das ações, e sim como os preços são formados, de acordo com os resultados esperados da empresa a longo prazo.

As orientações do autor não são novas, como ele mesmo diz. Estão de acordo com a teoria de Finanças Corporativas. Mas é importante como um guia prático da aplicação desses conceitos. Vou listar os princípios e farei alguns comentários.

Princípio 1 – Não gerencie o lucro ou dê indicações sobre o lucro

Os administradores às vezes recorrem ao gerenciamento de lucro. Em suas piores formas isso significa recorrer fraudes à lá Enron. Em suas formas mais benignas, mas ainda danosas, significa reduzir despesas ou adiantar receitas (vender os produtos por qualquer preço, mas vender) para aumentar os lucros de forma a atingir as expectativas do mercado. Essas decisões acabam se mostrando destruidoras de valor. O mais preocupante é que o autor cita uma pesquisa que diz que 80% dos altos administradores recorreriam a esses artifícios para atender as previsões dos analistas.

Princípio 2 – Tome decisões estratégicas que maximizem o valor esperado, ainda que o resultado seja um lucro menor no curto prazo
Princípio 3 – Faça aquisições que maximizem o valor esperado, ainda que o resultado seja um lucro menor no curto prazo

Esses princípios são análogos. Para aumentar o valor da empresa, os administradores devem aceitar os projetos (incluindo aquisições) com valor presente líquido positivo (o mesmo que dizer aceitar projetos com rentabilidade acima do custo de capital). Esses princípios podem ser violados se o administrador deixa de aceitar projetos rentáveis (porque isso pode elevar as despesas e diminuir o lucro ou porque podem colcoar o emprego deles em risco) ou se o administrador aceita projetos inviáveis só por ter sobras de caixa.

Especificamente para fusões, há dois fatores que complicam mais a questão. O primeiro é que o critério para decisão pode ser o lucro por ação (LPA) e que uma aquisição pode aumentar o LPA sem que isso crie valor; se o P/L da empresa adquira for menor, isso levaria a uma queda no P/L da empresa, o que a tornaria mais “atraente” e deveria (assim pensam) provocar uma alta para alcançar novamente o P/L anterior. Se a empresa adquirida não for comprada a um preço menor do que o valor presente para a empresa adquirente, isso não cria valor. A outra questão são as complicações de se adquirir uma empresa ou fundir com outra (êxodo de funcionários, incompatibilidades entre as empresas, comissão de advogados e bancos de investimento, etc.).

Princípio 4 – Mantenha somente ativos que maximizem o valor.

Esse é um problema especialmente válido para empresas que atuam em vários setores ou que atuam em várias áreas de seu setor. Se uma unidade de negócio (UEN) não tem um bom desempenho, o certo deveria ser vendê-la para algum interessado e concentrar os recursos da empresa nas áreas de negócios que criem valor. Um argumento a favor de manter essas unidades de negócios é a sinergia que criam na forma de produtos ou serviços que podem ser vendidos para outras unidades. Isso já entra na conta do valor da unidade e nem sempre o benefício de se manter essa UEN é maior do que o de terceirizar essa atividade.

Princípio 5 – Devolva dinheiro a acionistas quando não há oportunidades factíveis de geração de valor para o investimento no negócio.

Lição básica da parte de Política de Dividendos em Finanças Corporativas. Os administradores podem ser tentados a manter um caixa elevado, para proteger a si próprio de variações no mercado e reduzir a probabilidade de ser demitido, ou pode ser tentado a executar projetos que não geram valor (mas que podem trazer benefícios para si próprio). Na ausência de bons projetos, o caixa vale mais na mão dos acionistas do que dentro da empresa.

Princípio 6 – Premie o presidente e altos executivos por gerar retornos superiores no longo prazo.
Princípio 7 – Premie executivos de divisões operacionais por agregar um valor superior por vários anos.
Princípio 8 – Premie gerentes de nível médio e o pessoal de linha de frente pelo desempenho superior nos principais geradores de valor sob sua influencia.
Princípio 9 – Exija que altos executivos assumam o risco de investimento tanto quanto acionistas

Esses princípios estão diretamente relacionados à questão das bonificações abordada anteriormente. Nos princípios 6 e 9, o autor sugere algumas soluções para os planos de stock options e sugere que a empresa exija que seus altos executivos tenham parte considerável de seu patrimônio em ações da empresa (para que o executivo assuma o risco tanto quanto os acionistas). Para os gerentes de divisões operacionais (princípio 7), o desafio é separar o desempenho da empresa (que pode ser medido pelo preço das ações) do desempenho de suas unidades de negócios. Para tal, o autor sugere bônus baseados no EVA (Valor Econômico Adicionado, da Stern Stewart) da unidade de negócios. No princípio 8, o autor sugere que funcionários de escalão médio e baixo sejam pagos com bônus com base em medidas de desempenho (taxa de retenção dos clientes, crescimento de vendas, etc.).

Princípio 10 – Dê a investidores informações relevantes para o valor.

Por fim, o autor diz que a empresa pode ter seu valor aumentado se as informações relevantes forem apresentadas com transparência. Isso, em tese, diminui a volatilidade das ações (reduz a incerteza dos investidores) e diminui o custo de capital.

O Bônus e a Crise

Um dos vilões apontados da crise do subprime é a ganância, manifestada na forma de bônus polpudos para executivos das empresas agora em dificuldades. Verdadeiro ou falso?

Primeiro, uma explicação sobre a razão de ser do bônus. No início, os funcionários (incluindo altos executivos) eram remunerados exclusivamente com um salário fixo. O problema dessa prática é que não cria incentivos para que os funcionários se esforcem (com ou sem esforço, o salário é o mesmo) ou corram riscos pelos quais serão cobrados depois. O resultado prático disso é baixa produtividade (pelo baixo esforço) e a tomada de decisões excessivamente conservadoras que desperdiçam boas oportunidades que deveriam ser exploradas.

Para resolver esses problemas, foram introduzidas práticas de remuneração variável. As suas formas mais simples são comissões de vendas (que incentivam os vendedores a se esforçarem mais para venderem mais) e remuneração por desempenho (por exemplo, porcentagem de novos produtos na receita total). Para alta direção, existem formas mais sofisticadas como bônus por resultados (porcentagem do lucro, comumente) ou stock option (direito de comprar ações por um determinado preço após uma determinada data). A idéia da remuneração variável para altos executivos é alinhar os interesses dos administradores e dos acionistas para quem eles trabalham. Com isso, idealmente, passam a ter objetivos em comum, maximizar o valor da empresa.

Duas questões são levantadas por qualquer método de remuneração variável: toda atividade remunerada é importante para se alcançar os objetivos da empresa? Toda atividade que diz respeito aos objetivos é remunerada? A negativa para uma ou para as duas questões pode criar problemas.

Voltando ao contexto da crise. A remuneração baseada em lucro foi um problema já que remunerou atividades que se provaram destruidoras de valor ao aumentarem enormemente o risco das empresas. Incentivos de curto prazo criam incentivos para que os funcionários aumentem os lucros ou as receitas no presente, mesmo que isso possa vir a trazer problemas para a empresa no futuro. As conseqüências negativas, que agora foram evidenciadas, poderiam ser ignoradas, pois eles eram remunerados para correr riscos, mas não poderiam ser penalizados caso isso resultasse em perdas (não teriam bônus ou seriam despedidos, mas, em geral, não precisariam devolver o que receberam). Esse é o risk taking sem risk bearing.

Isso tudo não é novo e não se observou empiricamente esses problemas só agora. O problema maior foi de governança. Os acionistas não interferiram na política de remuneração e deixaram que o sistema que privilegia os resultados de curto prazo fosse instalado. O que hoje muito se fala de “say on pay”, a prática dos acionistas de opinarem sobre a remuneração de seus agentes, já deveria ser algo normal.

Um outro fato que explica a ocorrência das elevadas bonificações, mesmo quando as empresas já estavam tendo prejuízos, é a intensa concorrência pelos melhores administradores. Para conseguir atrair os melhores talentos, as empresas passaram a oferecer bônus a seus executivos antes mesmo que esses começassem a trabalhar. Muito do alarde sobre a AIG tem origem nesse bônus de entrada.

Para terminar, referências sobre o assunto, em geral e no caso particular do subprime:

Economia da Estratégia (Besanko, Dranove, Shanley e Schaffer): Os capítulos 14 e 15 tratam da questão dos incentivos dentro da empresa, tanto explícitos (definidos em contratos, bônus, por exemplo), quanto os incentivos implícitos (que dependem de julgamento subjetivo ou de uma entidade incontrolável, como promoções e stock options, por exemplo). Tratam também das duas questões abordadas no 4º parágrafo deste texto (ação oculta e informação oculta).

Microeconomia (Pindyck e Rubinfeld): Os autores abordam a questão no contexto da assimetria de informações e risco moral. Os administradores são melhores informados sobre seu próprio esforço e sobre os resultados esperados de seu trabalho. Não é possível que os acionistas definissem uma política de remuneração com base em critérios observáveis (empenho, dedicação, etc.), por causa dessa assimetria de informação. A solução seria atrelar a remuneração aos resultados da empresa (lucros, valor das ações, etc.).

Revista Capital Aberto nº. 62: A reportagem mostra o quanto essa questão é antiga (no começo do século XX, a DuPont começou a remunerar os funcionários com ações) e cita algumas melhorias aos programas de remuneração variável. O bônus por lucros poderia ficar retido e ser pago somente se os resultados alcançados forem sustentáveis. Ou o parte do bônus poderia ser convertido em ações que só poderiam ser vendidas no futuro. As stock options devem ser exercidas somente passado um longo tempo (o vesting period deveria ser aumentado).

Revista Exame nº. 939: Essa reportagem acrescenta como um dos problemas (além dos já citados na Capital Aberto) o bônus de entrada, um prêmio para que o executivo aceite trabalhar na empresa (já tratei disso). Fala também dos problemas das stock options que perdem o poder de estimular quando se encontram underwater (com preço de mercado muito abaixo do preço de exercício, muito fora do dinheiro, na terminologia das opções financeiras). Cita como melhorias para a remuneração variável as cláusulas de clawback (a possibilidade da empresa tomar de volta o bônus caso as decisões tenham se mostrado ruins), a troca das stock options por ações que não podem ser vendidas por um tempo e o say on pay. A proposta de aumentar a proporção de salário fixo pode resultar em um aumento no conservadorismo que talvez não seja interessante.

Remuneration: Where we´ve been, how we got there, what are problems, and hot to fix them (Michael Jensen, disponível aqui ): Não cheguei a ler, mas é sobre o assunto e parece bom.

As Teorias de Expectativas Racionais estão em crise

Theories of rational behaviour are facing crisis. Artigo do Financial Times.

Na hora de buscar culpados, atira-se para todos os lados. A teoria econômica é só mais um alvo fácil entre tantos.

Primeiro, as falhas das Expectativas Racionais não foram apontadas apenas agora. Existe o conceito de Racionalidade Limitada, que os problemas são tão complexos que é simplesmente impossível agir da forma como os modelos sugerem. Nisso, busca-se não uma solução ótima (que seria alcançado por uma modelagem racional), mas uma solução satisfatória que deve ser a melhor possível. Os tomadores de decisão também sofrem com uma série de vieses: o modo como o problema é apresentado pode mudar suas decisões (mesmo que o problema seja o mesmo), pode haver um excesso de confiança ou pode acontecer dele agir de forma oportunista se não estiver sendo monitorado pela pessoa para quem ele trabalha (se for o caso). O mais importante nesse caso é estudar como as pessoas agem com racionalidade limitada, quais as conseqüências disso e como melhorar a toma de decisões, ao invés de simplesmente descartar a idéia de racionalidade perfeita. Alguma concepção de racionalidade deve ser usada; se não existisse a idéia de racionalidade, tudo seria permitido.

Sobre as hipotecas holandesas, o próprio autor já diz qual é o problema do preço de mercado: falta absoluta de liquidez. Há um deságio por liquidez para ativos pouco líquidos e é isso que acontece com essas hipotecas. O comprador de um ativo pouco líquido não sabe a qual preço efetivamente realizará a venda no futuro por conta da elevada diferença entre a melhor oferta de compra e de venda (bid-ask spread). Se o último preço de uma ação foi R$20, a melhor oferta de compra é de R$18 e a melhor oferta de venda é R$22, se você quiser operar imediatamente, precisa pagar R$22 e se quiser vender imediatamente por R$18. Dessa forma, o preço da ação pode ser empurrado para abaixo do que seria justificável pelos seus fluxos de caixa. Não me parece haver nenhuma contradição com o que já sabemos sobre a formação de preço dos ativos.

Não me parece ilógico a Shell tapar o rombo nos planos de previdência agora. Nada, absolutamente nada, garante que o rombo estará menor quando “parte significativa”, como escreveu o autor, dos benefícios terão que ser pagos. O argumento do autor poderia ser aplicado para uma empresa com dívida em dólar, a ser paga daqui a um ano ou mais, após uma alta expressiva do dólar: por que se preocupar agora com isso? Não é isso que eu penso; essa é uma dedução lógica, como diria o autor, desse raciocínio.

Jack Welch não disse nada contra o objetivo da empresa de criar valor para o acionista. Apenas afirmou que isso não é a estratégia da empresa, e sim o resultado de suas estratégias. No futebol, fazer gol não é estratégia, é o resultado do jogo. O que o autor do artigo diria sobre o futebol é que Jack Welch acha estúpido que os jogadores façam gol. Não foi isso que Welch quis dizer. Confira aqui e aqui (atente-se ao que Welch diz, não o que o jornalista escreveu a parte).

Sobre o preço das ações, o autor comete uma série de erros. O preço das ações varia por mudanças nas expectativas de seus fluxos de caixa (como o autor afirma implicitamente), mas também variam com as mudanças na percepção de risco por parte dos investidores (refletido nos prêmios por risco). E não é só a expectativa que mudou, a realidade econômica (PIB, lucro das empresas, etc.) mudou de uma maneira que era virtualmente impossível de se prever ou de se prevenir. Os preços devem se ajustar de acordo com essas mudanças todas.

A crítica feita à remuneração com base na valorização das ações é válida, mas erra o alvo. O alvo certo não é toda a idéia de que os administradores deveriam maximizar o valor da empresa, e sim da forma como os incentivos são dados. O administrador não deveria ser remunerado pela alta no preço das ações, já que isso tem a ver com fatores fora do controle do administrador (o mercado como um todo pode estar em alta ou queda, por exemplo).

A idéia de que todos os administradores deveriam ser considerados idiotas se a teoria valesse alguma coisa é furada. O fato da ação cair menos do que deveria (ter um retorno ajustado ao risco positivo, apesar de um retorno nominal negativo) poderia ser por conta da ação do presidente na empresa, que tomou boas medidas para amenizar os efeitos da crise. Se ele deveria ser remunerado por isso ou não é outra história.

Os acionistas devem ter interferência na empresa sempre, com mercado em baixa, com mercado em alta, ou com mercado de lado. Não entendi a crítica feita pelo autor a esse respeito.

Nas crises, a maioria dos conceitos não são revisados a sério. Na verdade, as pessoas se dão contam que entendiam mal os conceitos que pensavam dominar.