domingo, 8 de março de 2009

Mulheres no comando

Nos mais variados contextos, se diz que a mulher está no comando. De forma geral, me parece grandemente exagerado e nas companhias de capital aberto isso claramente não procede. Ainda são poucas as mulheres em cargos como presidência do conselho de administração, presidência da diretoria e diretoria de relações com investidores.

Presidente do Conselho de Administração: 8, em especial a Dilma Pena (Cesp, EMAE e Sabesp) e a Dilma Rousseff (Petrobras).

Diretora-presidente: 3, em especial a Anna Christina Saicalli (B2W).

Diretora de Relações com Investidores: 14, como a Viviane Castro (Redecard) e Daniela Sabbag (Pão de Açúcar).

Isso de um total de pouco menos do que 400 empresas (com algumas pessoas preenchendo o cargo em mais de uma empresa).

Uma das explicações que eu encontro é que a entrada da mulher no mercado de trabalho é ainda relativamente recente e que os cargos principais requerem mais tempo de empresa e de experiência. Há mais diretoras de relações com investidores do que nos demais cargos porque (pelo que pude perceber) a média de idade nessa diretoria é menor e o cargo começou a ser levado a sério apenas muito recentemente, o que acaba tornando a competição por esse cargo mais igualitária entre os gêneros..

Com o tempo, imagino que o número cresça até chegar (com muito otimismo) próximo ao da proporção de mulheres na população.

Fora das empresas de capital aberto, há algumas mulheres ocupando cargos importantes. Fora a ministra Dilma Rousseff, presidenciável em 2010, tem a presidente da Caixa Econômica Federal (Maria Fernanda Ramos Coelho), a presidente da Comissão de Valores Mobiliários (Maria Helena Santana) e a presidente da Securities Exchange Comission, a CVM americana (Mary Schapiro) e ainda a Maria Silvia Bastos, ex-presidente da CSN entre 1999 e 2002 e atual presidente da Icatu Hartford.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Exatamente, o que você quer dizer por especulação?

(Exactly, what do you mean by speculation?)
Martin S. Fridson
Journal of Portfolio Management, Fall 1993.

Logo no começo do texto, o autor aponta o uso tão disseminado dessa palavra que parece haver um consenso sobre o que ele significa. Pois não há. Ele argumenta isso mostrando diversas definições de “especulação”, sem que elas convirjam para um sentido comum, muitas vezes se contradizendo.

Um erro nessa discussão, que o autor aborda apenas de passagem, é classificar “investidor” ou “especulador” com base em juízos de valor. Especulador ("de curto prazo") é considerado um agente nocivo enquanto que o investidor ("de longo prazo") é considerado um agente benefício para a sociedade. O autor não examina essa questão benefício x maléfico e trata do conceito de especulação tentando se isentar de juízos de valor.

O autor faz um compêndio de definições para especulação. Algumas tratam o termo como explorar mudança de preços; outras como operação de alto risco; outros que se trata de buscar retornos rapidamente; há a combinação de definições, como explorar mudanças rápidas de preços a um elevado risco; uma definição trata a especulação como a ausência de garantias; Keynes trata como desvio do consenso de mercado procurando antecipar seus movimentos. Sendo rigoroso, é possível afirmar que comprar qualquer ativo que não seja livre de risco é especulação.

Essas definições têm problemas. Um problema é a falta de precisão: o que define curto prazo (15 minutos, 1 dia, 1 mês, 1 ano, 10 anos?), o que define alto retorno (qualquer coisa acima da taxa livre de risco, o dobro, o triplo, 10 vezes mais?) e o que é risco elevado (classificação de risco baixa, volatilidade duas, três, quatro vezes maior do que o índice de mercado?). O autor ainda cita um caso em que há um consenso de que algo ocorrerá e que, se for contrariado, levará a uma baixa no preço do ativo (ou dos ativos). Um investidor pode contrariar o consenso e sair, especulando que o mercado estará errado. Apesar de parecer especulativa, a operação não atende todos os critérios: o investidor não procura elevados retornos (espera se livrar de eventuais perdas), não tem horizonte de curto prazo (as conseqüências do evento contrário podem ser prolongadas) e não corre grandes riscos (se o evento esperado ocorrer, estiver “precificado”, não é de se esperar uma alta muito vigorosa).

O texto passa a tentar criar critérios melhores. Primeiro, o autor pergunta se a especulação depende da ação do especulador ou do objeto da especulação. Existem ativos especulativos? É natural pensar que sim, já que as agências classificadoras de risco separam ativos de grau de investimento e de grau especulativo. Nesse caso, especulativo significa conjectural, um sinônimo de especulativo no sentido não-financeiro, como as agências (à época) explicavam (não sei se ainda o fazem).

Imagine por exemplo as ações da Petrobras. Se for para classificar como especulativa ou não, teríamos que dizer que não são especulativas. No entanto, essas ações servem tanto para o investidor que deseja manter essa ação até a morte quanto para o day-trader que pode ficar com a ação por, digamos, 15 minutos. Ou então, imagine que alguém compre ações de uma empresa em recuperação judicial (Haga, por exemplo). Um “investidor” pode comprar um ativo altamente “especulativo”, mas expondo-se a pouco risco ao manter uma baixa proporção desses ativos (diversificando, em outras palavras). Dessa forma, o autor afirma que a especulação está em função da intenção do operador, não no tipo de ativo envolvido.

No contexto da Teoria das Carteiras e da Hipótese de Mercados Eficientes, o autor sugere que o comportamento especulativo é uma aposta contra o consenso. O consenso é dado pela carteira de mercado e qualquer desvio significativo desta implica uma aposta a favor de certos ativos contra os demais ativos. Mas nem todo desvio da carteira de mercado é especulativo. O investidor pode decidir alocar seu capital em ações que pagam elevados dividendos por ter uma preferência por renda. Ou em ações de alto crescimento, vendo que existe um prêmio por risco superior ao das ações em geral (se não fosse aberta essa brecha, ações como uma classe de ativos deveriam ser consideradas especulativas por natureza). Em ambos os casos, investidor manterá uma carteira bem diversificada dessa classe de ações, utilizando-se de um critério (liquidez, valor de mercado ou outro) ou mesmo investirá em um índice já criado para tal propósito (índice Small Caps, no Brasil, por exemplo).

Essa idéia se aplica também para a combinação de ativos de risco com ativos sem risco. Essa combinação é dada pelas preferências de risco do investidor, que não mudam do dia para a noite. Se repentinamente o investidor decide mudar a composição (sem que isso seja um rebalanceamento), certamente é uma aposta em um cenário bearish/bullish e deve ser tratado como especulação. Investir 100% em ações e não apenas 50% não é especulativo, é uma composição de carteira que está compatível com o perfil do investidor.

A intenção óbvia da especulação é ganhar mais do que não especulando. Mas não é qualquer “ganhar a mais”, e sim obter um rendimento ajustado ao risco superior.

O que leva à definição do autor: Especulação é a subdiversificação (desvio da carteira de mercado de uma classe de ativos) com a intenção de auferir um retorno ajustado ao risco superior. Qualquer um que não possua uma carteira bem diversificada de determinada classe ativos está especulando. O uso de qualquer ferramenta para se determinar se o ativo está caro ou não (Análise Técnica, P/L, etc.) serve à especulação. Manter uma carteira pouco diversificada sem fazer nenhuma “previsão” do futuro, mantendo ações de empresas “sólidas e bem administradas” é especulação barata (que pode sair cara!).

Isso me parece redefinir o termo "especulação", mas não "investir". Continuarei a usar a palavra "investir" como sinônimo de aplicar (exemplo: investir em ações ao invés de aplicar em ações) e a palavra "investimento" de uma forma geral, não importa se a intenção for especular ou não. Mas terei cuidado ao usar a palavra "especulação" e suas variantes.

Modificado em 06/01/11: Percebi que o segundo parágrafo não estava lá essas coisas e resolvi reescrevê-lo, sem nenhum grande impacto no texto.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Ambev



Última atualização: 31/08/2009

Dados da empresa
Nome Completo:
Companhia Bebidas das Américas – Ambev
Sede: Rua Renato Paes de Barros 1017 - 4º Andar (São Paulo – SP)
Fundação: Antártica (1891), Brahma (1904) e Ambev (01/07/1999).
Listagem: Antártica (26/12/1915)
Auditoria: KPMG
Atividade (segundo Notas Explicativas):
A Companhia de Bebidas das Américas – AmBev (referida como “Companhia” ou “AmBev” ou “Controladora”), com sede em São Paulo, tem por objetivo, diretamente ou mediante participação em outras sociedades, no Brasil e em outros países nas Américas, produzir e comercializar cervejas, chopes, refrigerantes, outras bebidas não alcoólicas e malte.

A Companhia mantém contrato de “franchising” com a PepsiCo International Inc. ("PepsiCo") para engarrafar, vender e distribuir os produtos Pepsi no Brasil e em outros países da América Latina, incluindo o Lipton Ice Tea, o isotônico Gatorade e H2OH!.

A Companhia mantém contrato de licenciamento com a Anheuser-Busch Inc. através da sua subsidiária Labatt Brewing Company Limited (“Labatt Canadá”), para produzir, engarrafar, vender e distribuir os produtos Budweiser no Canadá. Além disso, a Companhia produz e distribui Stella Artois sob licença da Interbrew International B.V. (“InBev”) no Brasil, Canadá, Argentina e outros países e, por meio de licença concedida à InBev, distribui Brahma nos Estados Unidos e em determinados países da Europa, Ásia e África.
Site de RI

Dados das ações
Código: AMBV3 e AMBV4
Outras bolsas: NYSE (ABV)
Segmento de listagem na Bovespa: Tradicional (sem governança diferenciada)
Ibovespa: Como Ambev, entrou em Jan/01 assim que foi criada. A Antártica Paulista esteve no primeiro Ibovespa e ficou até Jan/75. A Brahma PN entrou pela primeira vez em Set/70 e saiu na segunda vez para virar Ambev. Atualmente (Maio/09), a AMBV4 é a 21ª maior participação no índice com 1,122%.
Tag Along: Não oferece.
Maior acionista: Inbev (65,29% das ON)
Ações em circulação: 9,41% (ON) e 53,75% (PN)

Curiosidade: Em 2005, conseguiu ser a terceira maior companhia por valor de mercado dentre as companhias hoje com capital aberto, por volta de R$1,5 bi acima do Itaú. Atualmente, é a quinta colocada.

Ações nem sempre são melhores no longo prazo

Uma história comum que nunca deixa de circular na mídia (imprensa e meios de comunicações mais tendenciosos) é a de que, no longo prazo, as ações sempre terão rendimento superior ao da renda fixa e, portanto, no longo prazo o risco é zero (comparado com renda fixa). No momento em que o Dow Jones alcançou o menor nível desde Set/96 (mínima de 03/03/09), é tempo de rever essa história.

A evidência apresentada é que em períodos de 10 anos, em apenas 26 dos períodos entre 1871 e 2002 o rendimento de renda fixa foi superior ao das ações (isso nos Estados Unidos). De 1945 até 2002, foram 13 os períodos com rendimento baixo de ações. Incluindo 2003 a 2008, imagino que mais dois períodos (2007 e 2008) seriam incluídos (2009 não porque ainda não terminou). Essas estatísticas foram apresentadas no livro Investment Fables de Aswath Damodaran com dados de Robert Shiller (não consegui reproduzir o estudo).

Alguns problemas com essa história (alguns pegos do livro supracitado):

1) 28 períodos de um total de 136 são 20,59%. De 1945 para frente, são 15 períodos de um total de 64 (23,44%). Não é muito confortável imaginar que em 20% do tempo (arredondando para baixo) estaremos com menos do que teríamos em uma alternativa de baixo risco em um período de 10 anos (que é bastante tempo, 12,5%, 16,13% da idade adulta para quem espera viver até os 80, sendo otimista).

2) Mesmo que pudéssemos comprovar que nunca em um dado período (20, 30, 40 anos) as ações perderam da renda fixa, e mesmo que pudéssemos ter a confiança que ficaríamos “comprados” até lá, o risco não se anularia. Diversos fatores podem encurtar o horizonte de tempo: a pessoa pode precisar do dinheiro por questões familiares, de saúde, para um projeto, para subsistência... e quando precisar, pode ter menos do que teria se investisse em renda fixa (ou pusesse debaixo do colchão).

3) Por essa lógica, se eu garantir que em 30 anos as ações nunca perderam da renda fixa e esperasse me aposentar aos 65 anos, teria que parar de investir em ações aos 35, sob risco de ter menos do que teria em renda fixa aos 65 anos.

4) Há um viés de sobrevivência na análise, que é feita tomando como base os Estados Unidos, a nação capitalista mais bem sucedida da história (apesar da atual crise). Seria possível generalizar esses resultados para nações menos desenvolvidas? Provavelmente, em alguns sim, em outros não.

5) Para quem monta uma carteira que não seja a de mercado e que não seja bem diversificada (especula, em outras palavras), pode acontecer de uma das empresas em que se investe quebrar ou tenha um desempenho paupérrimo, prejudicando o resultado da carteira (pois pouco diversificada).

6) O argumento de quem investe em uma carteira pouco diversificada é que o critério adotado é de investir em empresas “sólidas e bem administradas”, “de bons fundamentos”, “com boas perspectivas”, “boa pagadora de dividendos”, “que Buffett compraria” e outros jargões a gosto do cliente. Primeiro, é preciso saber e definir bem o que é isso (em muitos casos, quem precisa se expressar com jargões não sabe bem do que fala). Segundo que empresas hoje nessas condições podem não se mostrar como tal no futuro não muito distante, como mostram casos recentes (AIG, Citigroup, GM, GE, etc.). Terceiro que, mesmo que a empresa não quebre, o risco macroeconômico pode prejudicar a empresa, tenha “bons fundamentos” ou não. Nesse caso, nem diversificação salva.

7) “Ah, mas antes da coisa piorar, eu saio”. Mas, o que garante que a pessoa saiba a hora de sair? E que, quando decidir fazê-lo, saia com rendimentos acima da renda fixa?

8) Se o investimento for em um fundo de investimentos, há o risco do gestor do fundo falir, levando o investimento junto. Se o fundo for alavancado, o investidor pode ter prejuízo que supera os 100%.

9) Pergunte a um islandês, um japonês ou um tailandês “das antigas” (o islandês pode ser mais moço) o que a pessoa acha dessa história. Leve um segurança junto, pergunte em grupo, vá armado ou vá sozinho e desarmado por sua conta e risco.

10) Foi tratado risco como retorno acima da taxa livre de risco (prêmio por risco). Pôs-se em dúvida que no longo prazo as ações sempre ganham da renda fixa. Mas, a despeito disso, o investidor aplicou em ações. Mesmo que em 30 anos o investidor tenha mais investindo em ações do que teria em renda fixa, ele passou 30 anos, passando por uma ou duas crises, na dúvida de se teria ganhos acima da renda fixa ou não. As quedas do mercado alimentaram sua dúvida sobre seus retornos. Poderia inclusive perder tudo. Os fortes movimentos (alta e baixa) deixaram tudo muito mais imprevisível. Esse “pôr em dúvida” é o risco, a incerteza inerente ao investimento. O investidor em renda passou esses 30 anos tranqüilos, tendo aceitado um retorno fixo e abaixo do retorno esperado pelas ações, podendo, com baixa chance, ter mais do que o teria com ações. O investidor em ações passou 30 anos com preocupação, com a bem fundamentada expectativa de ter um retorno acima da renda fixa que remunere a incerteza que passou ao longo do tempo, mas sem saber se será bem sucedido em seu intento. Essa é a vida do investidor em ações.

Não argumento aqui que investir em ações não seja um bom investimento com horizonte de longo prazo ou que manter uma carteira diferente do índice de mercado e pouco diversificada seja errado (diga-se de passagem, faço as duas coisas). Nem que gestão ativa é melhor do que gestão passiva. O que não se pode fazer é dar como certo o rendimento das ações acima da renda fixa.

O meu argumento geral sobre gestão de investimentos é que, seja lá o que se faça, seja indexação, comprar e segurar, operações de curto prazo com Análise Técnica, arbitragem, operar com base em notícias, investimento em valor, investimento em empresas em crescimento, investimento em valor contrário, alocação tática de ativos, comprar ações aleatoriamente, comprar empresas de capital fechado, abrir o próprio negócio, investir em um fundo mútuo ativo, investir em ouro, investir em moeda estrangeira, investir em commodities, apostar em loterias, investir em títulos públicos, investir em títulos privados, investir em fundos imobiliários, comprar imóveis, seguir os especialistas, seguir o que os jornais e revistas recomendam, seguir dicas de fórum, deixar o dinheiro com um amigo, deixar o dinheiro parado no banco, dar o golpe do baú, engravidar de homem rico (só serve para mulheres), virar jogador de futebol, comprar passe de jogadores de futebol... (esqueci algo?), seja lá o que se faça, pode dar errado. Muito errado, em alguns casos. Pode dar errado a despeito da inteligência, estudo, talento ou diligência do investidor. Deixai toda certeza, ó vós que investis (nem que seja no colchão). Todas as alternativas possuem um risco e um retorno, nem sempre fáceis de mensurar, na maioria dos casos risco e retorno esperados, não garantidos. Investir consiste em aceitar o risco que se corre, esperando determinado retorno.

Um texto que desmonta com maior propriedade essa história do que eu é o “O Longo Prazo para Ações” (The Long-Term Case for Equities) de Paul Samuelson. Tratarei desse texto no futuro.

Balanços (04-05/Março/2009)

Dois balanços que merecem algumas observações:

Braskem: Por enquanto, é o maior prejuízo dentre as empresas de capital aberto (a Aracruz ainda pode ultrapassá-la...), quase R$ 2,5 bi. A razão foi a despesa financeira com variações cambiais. Observando-se a Demonstração de Valor Adicionado, é possível ver que o único público que não pode ter valor negativo é o "Pessoal". Impostos podem ser negativos devido ao Imposto Diferido, incentivos fiscais e créditos de impostos e Capital de Terceiros pode ser negativo se as despesas financeiras forem positivas (caso da variação cambial, considerada despesa mas que pode impactar positivamente o lucro). Capital Próprio perde valor com prejuízo, óbvio.

CC Des Imob: O Lucro Líquido registrado no balanço de 2007 foi de R$6,1 mi (R$ 24mi desconsiderando despesas com IPO). No balanço de 2008, por conta da convergência para o IFRS, o resultado líquido de 2007 aparece como um prejuízo de R$21,3 mi, R$ -3,3 mi sem despesas com IPO. A reação natural é: esses números são pura ficção! A maioria das divergências 07/08 são pequenas, algumas desprezíveis. Mas você não saber se a empresa deu lucro de R$6,1mi ou prejuízo de R$21,3 mi já é um exagero. O Valor Econômico de 5/03/2009 falou disso e explica os ajustes que tiveram que ser feitos. Provavelmente, as demais companhias do setor terão que fazer ajustes drásticos (a CCDI foi a primeira a divulgar balanço). Em todo caso, considero o lucro de 2008 como R$51.753mil e o prejuízo de 2007 R$3.296mil (ajustado por despesas com IPO).

terça-feira, 3 de março de 2009

Telebrás


Esse será um perfil diferente do feito para as outras empresas. O mais relevante não são os dados contábeis, de mercado, governança, perspectivas futuras ou outra coisa qualquer. Tem mais caráter histórico.

Muito se usa a Telebrás como um exemplo de Blue Chip que deu errado, de ação que era a mais negociada da Bovespa e hoje é um mico, etc. Isso não é de todo verdadeiro.

Sim, a ação preferencial da Telebrás foi a ação mais negociada entre Set/91 e Set/98, mas foi, na época, era uma empresa muito diferente da que é hoje, compartilhando apenas o nome e o código (TELB, após a reforma dos códigos para quatro letras). A Telebrás de hoje é o que restou da privatização da Telebrás, um esqueleto completamente inútil cuja dissolução já estava prevista quando da privatização. A Telebrás que foi a ação mais negociada era um conglomerado que reunia empresas estatais de telecomunicações. A privatização foi feita com uma cisão da Telebrás em 12 empresas:

Telefonia Fixa e Longa Distância::
Telesp – Comprada pela Telefônica, ainda como Telesp no pregão brasileiro.
Tele Centro Sul – Hoje Brasil Telecom
Tele Norte Leste – Telemar
Embratel – Controlada pela América Móvil.

Telefonia Móvel
Telesp Celular – Hoje, parte da Vivo
Tele Sudeste Celular – Hoje, parte da Vivo. Comprada na privatização.
Telemig Celular – Ainda existe como tal, a Vivo comprou.
Tele Celular Sul – Tim Participações
Tele Nordeste Celular – Tim Participações
Tele Centro Oeste Celular – Hoje, parte da Vivo.
Tele Leste Celular – Hoje, parte da Vivo.
Tele Norte Celular – Holding da Amazônia Celular, pertence à Telemar, ainda de capital aberto.

Os acionistas da antiga Telebrás receberam um recibo de ações que representava as ações dessas 12 empresas. O primeiro recibo (TELEBR 30 e 40, ON e PN respectivamente) incluía as ações da nova Telebrás (o zumbi de hoje) e o segundo (TELEBR 31 e 41) já excluía a atual TELB.

Se fossemos nos referir à Telebrás antiga ação mais líquida, deveria ser uma soma de: Telesp, Brasil Telecom, Telemar, Embratel, Vivo e Tim Participações (Tele Norte Celular está inclusa na Telemar). A soma resulta em um valor de mercado de R$ 82.950.038.000 (02/03/2009) e seria a terceira maior empresa por valor de mercado (a quarta após a fusão Itaú-Unibanco).

A Telebrás de hoje tem como atividade principal, conforme site da Bovespa: “Respondendo pelas obrigações legais e contencioso judicial”.

Há a discussão da reativação da Telebrás para levar a banda larga para regiões do país não atendidas atualmente usando a rede da falida Eletronet, fora outros objetivos como cuidar das comunicações militares. Não pretendo discutir qual é a probabilidade da Telebrás ser reativada. Mas, sou da opinião de que isso não faz sentido. Concordo com a opinião de Ethevaldo Siqueira exposta em um artigo no jornal Estado de São Paulo (disponível no site dele). O benefício de se fazer a “inclusão digital”, como diz o jargão, poderia ser feito a um custo muito menor se o governo pagasse para que uma ou mais operadoras fizessem esse serviço. Atualmente, as operadoras não prestam esse serviço por não ser lucrativo. É menos oneroso ao contribuinte pagar para as operadoras, tornando o projeto economicamente viável, do que fazer isso via uma estatal. Isso acontece porque as operadoras já possuem competências para operar redes de telecomunicações (competência que a Telebrás não tem) e já possui uma estrutura administrativa.

Seria necessário criar uma estrutura administrativa para esse projeto. E essa seria a verdadeira razão para reativar a Telebrás: empregar correligionários (do governo, dos aliados do governo, sabe-se lá de quem mais) em uma empresa estatal, de preferência mais do que seriam necessários, certamente mais pessoas (e de um tipo diferente) do que aconteceria se fosse contratada uma operadora.

O melhor para o contribuinte, o menos oneroso, seria esquecer essa idéia de reativar a Telebrás. Pena que esse nunca é o critério utilizado.

Não é muito relevante, mas algumas informações da atual Telebrás:
Receita Líquida 2008: R$ 0,00 (nunca teve receitas operacionais em sua forma zumbi)
Patrimônio Líquido: R$3.840.000 (era negativo em 2007).
Lucro Líquido 2008: R$- 31.784.000
Valor de Mercado (2/03/2009): R$ 198.112.250

Curiosidade: Entre 1999 e 2005, a Telebrás teve lucro. Apesar de não ter receita operacional, a Telebrás investe em títulos de renda fixa, que vão rendendo jurosm e possui receitas não-operacionais. Passou a ter prejuízos por conta de maiores despesas gerais e administrativas (desligamento de pessoal, perdas com ações judiciais, etc.).

segunda-feira, 2 de março de 2009

Maldição trimestral assola os mercados

Artigo do Valor Econômico de um colunista da Bloomberg News, publicado em 2/03/2009.

Na onda de procurar culpados pela crise e pelas demissões em massas que estão sendo feitas, o colunista escolheu como culpado o fato das empresas divulgarem balanços trimestralmente. Isso reforçaria a cultura de curto prazo e forçaria os executivos a tomar atitudes só para “agradar” os acionistas.

Pressão de acionista vai acontecer sempre, não importa se o balanço é anual, trimestral mensal ou diário. Os mercados não se movem apenas quando saem os balanços, mas na expectativa de como serão o próximo e os próximos. Quanto menos você divulgar resultados, mas incerteza se cria, e a pressão e a queda nas ações só tendem a piorar. Por essa lógica, o Itaú e o Unibanco não deveriam ter antecipado a divulgação do balanço do terceiro trimestre, quando surgiram dúvidas sobre os bancos brasileiros. Deveria ter divulgado só o anual de 2008 e olhe lá. Não se sabe onde estariam as ações desses bancos se isso tivesse acontecido.

Os argumentos apresentados são fracos. O colunista cita como exemplo a fraude contábil da Enron. A fraude teria ocorrido independente da periodicidade de divulgação dos resultados. Cita o esquema de remuneração baseada em lucros, que incentiva os administradores a inflar os lucros para ganhar um bônus maior. Mas, o que impediria que esse administrador inflasse o lucro e ganhasse bônus se o balanço fosse apenas anual?

O esquema de remuneração baseado em lucros e as fraudes contábeis são problemas, isso não se discute. Mas a questão apresentada nada tem a ver com esses problemas. Uma abordagem para o primeiro problema é atrelar o bônus á criação de valor para o acionista (uma variável de longo prazo) e para o segundo uma maior regulação e maior vigilância dos participantes do mercado.

A coluna destaca a frase “as empresas não quiseram dividir os lucros com os empregados, mas com seus acionistas”. Além de estar totalmente deslocada, sem muito nexo com o resto do texto, essa frase não quer dizer nada. O melhor (no pior sentido) dessa frase é a confusão de conceitos que faz. O que é a empresa? Da maneira tratada no texto, ela é um ser autônomo, animado, mas sem ser uma pessoa, que vai agindo e tomando decisões baseada na vontade e nos interesses próprios. Consertando a frase que, só pelo fato de ser torta, já não merece muito crédito, deveria ser: “os acionistas não quiseram dividir os lucros com os empregados, mas ficar com os lucros para eles”. Se isso ocorreu, o problema de falta disposição para gastar não existiria, já que certas pessoas físicas (acionistas) teriam dinheiro para gastar. Se a frase fosse “os administradores preferiram reter lucros a distribuir aos acionistas, muito menos aos funcionários” faria sentido, mas certamente não era isso que o colunista queria dizer.

O foco no curto prazo na análise de ações pode ser um problema. A solução seria que os analistas focassem na criação de valor a longo prazo, que é o que realmente importa, e se precavessem dos métodos de “administração de lucros” e das fraudes que podem ser feitas. Passa também por entender que é contraproducente trocar a diretoria toda vez que os resultados ficam abaixo da expectativa, o que não me parece ser tão comum quanto alardeiam (embora, precisasse pesquisar sobre isso). A periodicidade da divulgação de resultados nada tem a ver com isso.